Em louvor do ócio. Uma síntese analítica do ensaio de Bertrand Russell
1. Introdução. A suspeita moral contra o ócio O ensaio In Praise of Idleness parte de uma constatação autobiográfica simples, mas intelectualmente explosiva. Russell reconhece ter sido educado numa moral tradicional que associa o trabalho à virtude e o ócio ao pecado, uma moral condensada no provérbio segundo o qual “o diabo encontra ocupação para mãos ociosas”. Essa associação, internalizada desde a infância, molda comportamentos, constrói consciências culpadas e organiza sociedades inteiras. No entanto, Russell descreve uma ruptura entre a sua conduta pessoal, ainda disciplinada por esse imperativo moral, e a sua reflexão intelectual, que passa a considerar tal crença profundamente errada e socialmente danosa. Desde o início, o ensaio propõe uma inversão provocatória. Não se trata apenas de defender menos trabalho, mas de questionar a própria ideia de que o trabalho é, em si mesmo, um bem moral. Para Russell, a crença na virtude do trabalho excessivo não só é injustificada...