Uma síntese da obra “A Conquista da Felicidade” de Bertrand Russell (1930)
Primeira Parte – As Causas da Infelicidade
1 - O que
torna as pessoas infelizes?
Russell inicia a obra com uma constatação simples
e perturbadora. Ao contrário dos animais, que tendem a ser felizes quando têm
saúde e alimento, os seres humanos, sobretudo nas sociedades modernas, vivem
maioritariamente infelizes. Essa infelicidade não é excepcional nem marginal, é
difusa, quotidiana e visível nos rostos e comportamentos das pessoas.
Através de observações quase etnográficas da vida
urbana moderna, Russell descreve diferentes formas de infelicidade conforme os
contextos sociais. No trabalho, predominam a ansiedade, a tensão constante, a
incapacidade de brincar, a obsessão com a luta económica e a indiferença em
relação aos outros. No lazer de fim de semana, mesmo entre pessoas
confortavelmente ricas, encontra-se frustração, tédio e irritação, mascarados
por uma perseguição mecânica do prazer que não chega a sê-lo. Nas diversões
noturnas, a alegria surge como uma obrigação forçada, sustentada por álcool e
contactos físicos desprovidos de afeto, que acabam por libertar sentimentos de
culpa e autodesprezo, em vez de felicidade genuína.
Russell sublinha que estas formas de infelicidade
têm causas mistas. Derivam tanto do sistema social como da psicologia
individual, sendo esta última, em grande medida, moldada pelo próprio sistema.
Ainda assim, recusa fazer neste livro uma análise estrutural das grandes
reformas sociais necessárias, como a abolição da guerra, da exploração
económica ou da educação baseada no medo. Não porque as considere irrelevantes,
mas porque entende que nenhuma transformação social profunda será possível
enquanto os indivíduos estiverem tão infelizes que a própria vida lhes pareça
insuportável.
O foco da obra passa, assim, para o plano
individual. Russell dirige-se a pessoas que não sofrem de miséria extrema,
assumindo condições mínimas de saúde, rendimento e estabilidade. O seu objetivo
é tratar a infelicidade banal e persistente do quotidiano moderno, precisamente
aquela que se torna mais angustiante por não ter uma causa externa clara e
parecer inevitável.
Segundo Russell, essa infelicidade resulta
sobretudo de conceções erradas sobre o mundo, de éticas distorcidas e de
hábitos de vida que destroem o entusiasmo natural pela existência. A felicidade
depende, em última instância, dessa vitalidade elementar que pode ser
preservada ou recuperada por mudanças que estão, em larga medida, ao alcance do
indivíduo.
Para introduzir a sua perspetiva, Russell recorre
à autobiografia. Descreve uma infância e juventude marcadas por tédio,
melancolia profunda e ideação suicida, mitigada apenas pelo interesse
intelectual, em particular pela matemática. A sua felicidade posterior não
resulta de uma transformação súbita, mas de um processo gradual. Por um lado,
aprendeu a identificar desejos realizáveis e a abandonar ambições impossíveis,
como a obtenção de certezas absolutas. Por outro, e de forma decisiva, reduziu
progressivamente a sua obsessão consigo próprio.
Educado num ambiente puritano, Russell vivia
concentrado nas suas falhas morais e limitações pessoais. A libertação ocorreu
quando deslocou o centro da sua atenção para fora de si, para o mundo, para o
conhecimento e para as pessoas que amava. Reconhece que os interesses externos
trazem riscos de sofrimento, como a guerra, a perda ou a frustração
intelectual, mas considera que esses sofrimentos não corroem a própria
estrutura da vida, ao contrário do autodesprezo constante. Além disso, os
interesses externos geram atividade e envolvimento, funcionando como antídotos
naturais contra o tédio.
O interesse obsessivo por si próprio, pelo
contrário, é estéril. Pode conduzir à introspeção excessiva, à análise
psicológica interminável ou ao isolamento espiritual, mas não produz
felicidade. Em casos extremos de autoabsorção, Russell defende que apenas uma
disciplina externa rigorosa pode ajudar, não por ser moralmente superior, mas
por forçar o esquecimento de si mesmo através da ação contínua.
O capítulo termina com uma análise psicológica
mais geral da infelicidade. O homem infeliz típico é alguém que, privado de
satisfações normais na juventude, passa a sobrevalorizar um único tipo de
satisfação e a organizar toda a vida em torno da sua obtenção, sacrificando o
processo ao resultado. Num estágio ainda mais grave, comum na modernidade,
algumas pessoas desistem de procurar satisfação e passam a procurar apenas
distração ou esquecimento. O culto do prazer, nestes casos, é uma forma de
anestesia. A embriaguez, em particular, surge como uma espécie de suicídio
temporário, não trazendo felicidade positiva, mas apenas a suspensão momentânea
da dor.
Russell distingue estas pessoas dos narcisistas
ou megalómanos, que ainda acreditam na possibilidade de felicidade, ainda que
por vias erradas. Quem procura apenas a intoxicação perdeu, antes de mais, a
esperança. A primeira tarefa, nesses casos, é convencer o indivíduo de que a
felicidade é desejável. Russell rejeita a ideia de que a maioria das pessoas
escolha deliberadamente ser infeliz. Acredita que, se lhes for mostrado um
caminho plausível para a felicidade, a maior parte o preferirá.
É com essa convicção, prudente, mas otimista, que
Russell encerra o capítulo e prepara o terreno para a análise sistemática das
causas psicológicas da infelicidade que se seguirá.
2 - A
infelicidade byroniana
Neste capítulo, Russell analisa uma forma
específica e muito característica de infelicidade moderna. Trata-se da
infelicidade cultivada como sinal de lucidez, profundidade intelectual ou
superioridade moral. É a atitude de quem acredita que, depois de “ver através”
das ilusões do passado, percebeu que não há nada que valha verdadeiramente a
pena viver. Esses indivíduos são genuinamente infelizes, mas orgulham-se da sua
infelicidade, atribuindo-a à própria natureza do universo e considerando-a a
única posição racional para um espírito esclarecido.
Russell rejeita frontalmente a ideia de que a
infelicidade seja um sinal de maior racionalidade. Reconhece que pode haver uma
compensação mínima no sentimento de superioridade intelectual, mas considera-a
claramente insuficiente para substituir os prazeres simples da vida. Para ele,
a razão não impõe qualquer proibição à felicidade. Pelo contrário, o homem
sábio será tão feliz quanto as circunstâncias o permitirem e, se a contemplação
do universo se tornar excessivamente dolorosa, deve simplesmente voltar a
atenção para outra coisa.
Russell propõe uma inversão do diagnóstico
habitual. Não é uma visão lúcida e trágica do mundo que gera infelicidade, é a
infelicidade prévia, muitas vezes inconsciente, que leva certas pessoas a
fixarem-se obsessivamente nos aspetos mais sombrios da existência e a
construírem depois uma justificação filosófica para esse estado de espírito.
Distingue claramente entre o humor ou disposição emocional e a sua expressão
intelectual. Um estado de espírito não se combate com argumentos. Pode
desaparecer por ação, por necessidade prática ou por alterações físicas, mas
não por raciocínio abstrato.
A partir daqui, Russell revisita o pessimismo
clássico do Eclesiastes, mostrando que os seus argumentos não têm força lógica
suficiente para sustentar o desespero. A ideia de que “não há nada de novo sob
o sol”, de que tudo passa e se repete, de que o esforço humano acaba sempre por
beneficiar outros, só conduz ao pessimismo se se assumir previamente que a
própria experiência presente é destituída de valor. O erro central consiste em
viver permanentemente orientado para o futuro, como se o sentido do presente
residisse apenas no que dele resultará. Para Russell, não há valor no todo se
não houver valor nas partes. A vida não é um drama que se justifica por um
desfecho compensatório, cada geração vive o seu dia, e isso, por si só, não
constitui uma tragédia.
Russell argumenta ainda que a impermanência não é
motivo de desespero, mas condição da frescura da experiência. Se a vida fosse
infinita, os seus prazeres acabariam inevitavelmente por perder o sabor. A
atitude serena perante o declínio e a morte é tão racional quanto a indignação
trágica. Se os estados de espírito fossem decididos pela razão, haveria tantas
razões para a alegria como para o desespero.
A análise estende-se depois ao pessimismo
contemporâneo, representado por críticos culturais que lamentam a perda das
antigas certezas religiosas e morais. Russell sustenta que o pessimismo de uma
época raramente tem causas metafísicas profundas. Surge, quase sempre, em
contextos de instabilidade social, guerra, empobrecimento ou perda de estatuto
das classes intelectuais. Dá como exemplo a Idade Média tardia, profundamente
pessimista apesar da fé religiosa generalizada, para demonstrar que a crença
metafísica não protege, por si só, contra o desespero.
Um dos pontos centrais do capítulo é a crítica à
nostalgia em relação ao amor romântico vitoriano. Russell rejeita a ideia de
que o desencanto moderno com o amor seja prova de uma lucidez superior.
Considera que a idealização vitoriana do amor estava profundamente ligada ao
tabu sexual, o que levou à sacralização exagerada de certas formas de relação.
O desencanto contemporâneo resulta muitas vezes de um conflito interno entre
padrões antigos ainda ativos no inconsciente e a rejeição consciente desses mesmos
padrões. O problema não está na perda das ilusões do passado, mas na ausência
de uma ética racional que permita integrar o novo enquadramento.
Russell defende uma conceção do amor como fonte
direta de prazer, como intensificador das melhores experiências da vida e como
força que rompe o isolamento do ego. O amor, enquanto forma de cooperação
humana, revela valores inacessíveis a filosofias solitárias que colocam o bem
supremo na autossuficiência, no poder ou no prazer individual. Embora reconheça
que o amor intenso não seja universal, insiste que o seu valor não é afetado
pelo cepticismo, apenas pela incapacidade de o viver.
O capítulo aborda ainda a questão da tragédia na
arte. Russell concorda que a tragédia moderna não pode repetir os moldes
aristocráticos do passado, mas vê nisso um progresso, não um empobrecimento. A
perda da tragédia centrada em príncipes e heróis individuais reflete uma
convicção democrática mais profunda, segundo a qual nenhuma vida possui um
valor cósmico superior às outras. A tragédia contemporânea deve, por isso,
centrar-se na comunidade e não no indivíduo isolado.
Russell conclui com uma crítica severa aos
círculos literários fechados, desligados da vida real da comunidade, que
alimentam sentimentos de esterilidade, futilidade e desespero. A infelicidade
byroniana nasce frequentemente desse isolamento emocional e social. A sua
provocação final é dirigida aos jovens intelectuais que sentem que não há nada
que valha a pena fazer. A esses, Russell recomenda menos introspeção e mais
vida concreta, mais ação, mais contacto com necessidades reais. Só assim,
acredita, a escrita, a reflexão e até a felicidade poderão recuperar sentido.
Este capítulo consolida uma tese central da obra.
O pessimismo orgulhoso e cultivado não é sinal de profundidade, mas sintoma de
uma vida empobrecida em ação, relação e envolvimento com o mundo.
3 - O espírito
de competição
Russell começa por notar que muitos homens de
negócios, sobretudo na América e no meio empresarial inglês, dizem que o que
mais estraga a sua vida é a “luta pela sobrevivência”. Mas essa expressão,
embora dita com sinceridade, é enganadora. Na esmagadora maioria dos casos, não
está em causa a sobrevivência no sentido literal, como fome ou abrigo. O que
existe é outra coisa: a luta pelo sucesso, isto é, pela superioridade social,
pelo brilho perante os outros, pelo medo de parecer inferior, medíocre ou falhado.
O problema, diz Russell, é que muitos vivem como
se estivessem presos a um mecanismo inevitável, quando na verdade permanecem
numa passadeira rolante que não os eleva, apenas os esgota. Homens que já
poderiam viver com conforto continuam a trabalhar de forma obsessiva, como se
desistir fosse uma vergonha moral, uma espécie de deserção. Contudo, se lhes
perguntarmos que causa pública serve essa dedicação, rapidamente esgotam os lugares-comuns.
A competição tornou-se uma religião e o sucesso, um dever.
Russell descreve então, com ironia amarga, o
quotidiano do executivo bem-sucedido. Acorda cedo, sai antes da família, passa
o dia a representar o papel de decisor infalível, vive entre telefonemas,
ditados, almoços estratégicos, mercado e negócios. Regressa exausto e é
empurrado para deveres sociais que impedem qualquer intimidade real. O
resultado é uma vida com a psicologia de uma corrida de cem metros, aplicada a
uma maratona cujo único fim é o túmulo. A concentração e a tensão, úteis num
sprint, tornam-se destrutivas quando prolongadas por décadas.
A consequência humana é a aridez. Este homem
pouco conhece os filhos, pouco conhece a esposa, não tem amigos de verdade, não
vê o mundo com atenção, não lê, despreza música e arte como futilidades. Os
ritmos da natureza existem apenas enquanto afetam o mercado. Mesmo quando
viaja, fá-lo aborrecido, preso mentalmente ao escritório. A família, por seu
lado, interpreta o seu vazio como “filistinismo”, sem perceber que ele é também
um produto das suas expectativas e do culto social da riqueza. Russell
compara-o, provocatoriamente, à viúva hindu que aceita o ritual de autoimolação
por dever religioso e prestígio. Também o homem de negócios sofre
“voluntariamente” porque a sua cultura lhe ensinou que isso é nobre.
Daí a tese central do capítulo: para que este
tipo de homem seja mais feliz, tem primeiro de mudar de religião, isto é, mudar
a crença de fundo que identifica virtude e valor humano com acumulação e
vitória competitiva. Enquanto acreditar que o dever de um homem é perseguir o
sucesso e que recusar essa corrida é ser inferior, a vida permanecerá ansiosa e
estreita.
Russell mostra como esta mentalidade invade até
áreas onde não faz sentido. O dinheiro, por exemplo, deveria servir para
garantir segurança e lazer. Mas o “homem moderno” quer dinheiro para obter
ainda mais dinheiro, visando ostentação e ascensão numa escala social instável.
E como, sobretudo na América, a riqueza funciona como medida de inteligência, o
medo de perder dinheiro transforma-se num medo de parecer estúpido, um estado
semelhante ao stress de um exame. Russell admite que, nalguns casos, há também
um medo real ligado a experiências de pobreza na infância, mas considera-o um
fator secundário.
Ele não nega que algum sucesso e dinheiro
aumentem a felicidade até certo ponto. O que critica é transformar o sucesso no
ingrediente principal, comprado ao preço de sacrificar quase tudo o resto. A
raiz disto está, segundo Russell, na filosofia social dominante. Na Europa,
mesmo existindo competição, há outras formas de prestígio. Exército,
aristocracia, ciência, profissões liberais, tudo isto cria padrões em que o
respeito pode ser dado à excelência e não apenas ao rendimento. Na América,
pelo contrário, o dinheiro torna-se o critério mais visível e universal de
mérito, contaminando também os profissionais, os professores e a própria
educação. Desde cedo, os jovens aprendem que só importa aquilo que tem valor
pecuniário.
Esta cultura produz um efeito paradoxal. O homem
atinge o sucesso, mas não aprendeu a desfrutá-lo. Sem treino para prazeres mais
delicados, não sabe o que fazer com o tempo livre. A “vitória” deixa-o
entediado e inquieto, porque o propósito da vida foi definido como competir,
não como viver. Mesmo atividades como ler podem virar uma competição social:
lê-se para poder dizer que se leu, segue-se a moda mensal dos clubes de livros,
mas evita-se o contacto com obras exigentes e duradouras. A cultura torna-se mediana
e instrumental.
Russell liga isto a um declínio mais amplo de
padrões civilizados. Prazeres quietos e restauradores desaparecem, como a arte
da conversa, o gosto literário comum ou a capacidade de observar a natureza.
Ele dá um exemplo simbólico. Caminhando com estudantes por um bosque cheio de
flores silvestres, nenhum sabia o nome de uma única flor. Para quê, se não
aumenta o rendimento?
O problema, insiste, não é apenas individual. É
coletivo. A sociedade inteira transmite a ideia de que a vida é um concurso e
que o respeito cabe ao vencedor. Isso hipertrofia a vontade e empobrece os
sentidos e o intelecto. Russell sugere até que o puritanismo, ao longo de
gerações, pode ter produzido pessoas com vontade sobre desenvolvida e apetites
culturais atrofiados, tornando a competição uma filosofia “adequada” ao seu
temperamento.
A metáfora final é dura e famosa. Estes
vencedores são “dinossauros modernos”, preferem poder a inteligência e
tornam-se modelo a imitar. Mas, como os dinossauros, estão biologicamente
condenados. Vivem com tão pouca alegria que acabam por não desejar filhos,
tornam-se estéreis no sentido literal e no sentido existencial. A competição
como eixo da vida é demasiado tensa, demasiado muscular, demasiado hostil ao
descanso. Por isso, só pode durar uma ou duas gerações antes de produzir fadiga
nervosa, fugas por prazeres igualmente tensos, necessidade de aceleração
constante e, no limite, colapso.
A conclusão é clara. A filosofia da competição
envenena não só o trabalho, mas também o lazer. O remédio passa por reabilitar
o valor do prazer calmo, do desfrute sensato e do descanso restaurador,
integrando-os como partes legítimas de um ideal de vida equilibrado.
4 - O
aborrecimento e a agitação
Russell defende que o tédio é uma força
psicológica e histórica subestimada, mas decisiva no comportamento humano.
Considera-o uma emoção tipicamente humana, porque implica comparação
imaginativa entre o presente e um cenário alternativo mais desejável, além de
exigir que as faculdades não estejam plenamente ocupadas. Situações perigosas
ou absorventes podem ser desagradáveis, mas não são entediantes. Por isso, o
oposto do tédio não é o prazer, é a excitação, isto é, a sensação de que
“acontece algo” que distingue um dia do outro.
A partir daqui, Russell apresenta a tese central
do capítulo. O desejo de excitação é profundo, especialmente nos homens, e foi
historicamente mais fácil de satisfazer em estágios como a caça, a guerra e
certos jogos de risco. Com a agricultura e a vida sedentária, a monotonia
cresceu, embora a aristocracia tenha mantido, por mais tempo, formas de vida
mais próximas da excitação. Ainda assim, Russell contraria o senso comum do seu
tempo ao sustentar que a era das máquinas reduziu, e não aumentou, a soma global
de tédio. Em comparação com o passado, há menos isolamento, menos longos serões
vazios, mais oportunidades de entretenimento e de sociabilidade urbana.
Ele ilustra a monotonia antiga com exemplos da
vida doméstica e rural. O “tempo feliz em família” da pequena burguesia era
muitas vezes uma prisão, o pai adormecia, a mãe trabalhava, as filhas
desesperavam, sem liberdade para ler, sair ou imaginar outra vida. E, indo mais
longe no tempo, descreve o inverno medieval como uma fábrica de tédio,
analfabetismo, frio, isolamento, noites longas, ausência de deslocação e de
novidade. Russell sugere até que práticas brutais, como as caças às bruxas,
podem ter sido alimentadas também por essa necessidade desesperada de quebrar a
monotonia.
Apesar de vivermos hoje com menos tédio do que os
nossos antepassados, temos mais medo dele. A modernidade ensinou-nos a
acreditar que o tédio é evitável, desde que se persiga excitação com energia
suficiente. Daí a corrida contemporânea para a cidade, a mobilidade constante,
o cinema, a rádio, a vida social acelerada e a expectativa de estímulo
permanente. À medida que se sobe na escala social, essa perseguição torna-se
mais intensa. Paradoxalmente, quem tem dinheiro e tempo livre, e, portanto,
maior capacidade de escolher, torna-se por vezes o mais vulnerável ao tédio,
porque tenta erradicá-lo por completo.
Russell introduz então uma distinção crucial.
Existem dois tipos de tédio. Um pode ser frutífero, outro pode ser
estupidificante. O tédio estupidificante nasce da ausência de atividades vitais
e do hábito de viver anestesiado por estímulos externos. O tédio frutífero
surge, por assim dizer, quando não estamos sob o efeito de “drogas”, entendidas
em sentido amplo, substâncias, mas também hábitos de excitação constante. O
ponto é simples. Uma vida demasiado excitante exige doses cada vez maiores para
produzir o mesmo efeito, como uma dependência. Isso conduz à exaustão, à perda
de paladar para prazeres mais profundos e à substituição do que é orgânico por
titilações, da sabedoria por esperteza, da beleza por choques rápidos.
A conclusão prática é que alguma capacidade de
suportar tédio é essencial para uma vida feliz. Russell vai mais longe. A
incapacidade de tolerar o tédio é moralmente perigosa, porque, na sua visão,
pelo menos metade dos pecados humanos nasce do medo de não ter nada a
acontecer. Guerras, perseguições, pogroms, brigas, vícios, muitas vezes são
formas de fuga ao vazio.
Russell reforça a ideia com um argumento
cultural. Grandes livros têm partes aborrecidas, e grandes vidas têm longos
trechos monótonos. A grandeza requer persistência, trabalho e continuidade,
coisas incompatíveis com a exigência de entretenimento incessante. As figuras
de grande realização não viveram em permanente excitação. Pelo contrário,
viveram em ritmos relativamente quietos, com momentos altos raros e com muita
continuidade. Sem monotonia relativa, não há obra duradoura.
Daí a crítica à educação moderna. Russell acusa
os pais de fornecerem demasiadas distrações passivas às crianças, espetáculos,
guloseimas, variedade constante, e de não perceberem o valor de ter dias
semelhantes, com raras exceções. O excesso de estímulo ensina o cérebro a
exigir sempre “mais”, e torna a criança incapaz de suportar a monotonia
frutífera que é necessária para formar objetivos construtivos de longo prazo.
Uma geração que não tolera tédio, diz ele, será uma geração de “homens
pequenos”, desligados dos ritmos lentos da natureza, com impulsos vitais a
secar lentamente.
Aqui o capítulo muda de registo e ganha uma
dimensão quase ecológica. Russell afirma que somos criaturas da Terra e que a
vida humana precisa de algum contacto com o ritmo natural, lento, cíclico, com
estações, repouso, continuidade. Sem isso, a vida urbana torna-se “quente,
poeirenta e sedenta”, como uma peregrinação no deserto. Ele usa um exemplo
marcante. Uma criança pequena, levada pela primeira vez para o campo no
inverno, encontra alegria intensa em se ajoelhar na lama e encostar o rosto à
relva. Esse contentamento, primitivo e massivo, revela uma necessidade orgânica
profunda. Quando essa necessidade é sistematicamente frustrada, a pessoa
raramente permanece totalmente sã.
Russell contrapõe prazeres que não criam esse
contacto, como o jogo, que deixam um vazio imediato, um sabor de poeira e
insatisfação, a prazeres que nos “reenraízam” na vida da Terra, que podem ser
menos intensos no momento, mas deixam uma felicidade que permanece. Ele estende
esta ideia a formas mais elevadas. A poesia lírica de Shakespeare, quando
celebra aves, areia, mar, transporta para linguagem civilizada a mesma alegria
visceral do corpo em contacto com a natureza. E aplica o mesmo contraste ao
amor. Amor, para Russell, é renovação orgânica, refrescamento do ser, como
chuva depois da seca. Sexo sem amor é apenas descarga e, quando passa, pode
deixar fadiga, desgosto e sensação de vazio.
No fecho, Russell regressa ao paradoxo moderno. O
tédio mais insuportável das populações urbanas ricas nasce, em parte, da sua
separação da vida da Terra e, em parte, do próprio pânico perante o tédio. Ao
fugirem do tédio frutífero, caem no tédio estupidificante, porque tornam-se
incapazes de quietude. E a tese final é a mais importante do capítulo. Uma vida
feliz tem de ser, em grande medida, uma vida quieta, pois só num ambiente de
quietude pode existir a alegria verdadeira.
5 - A fadiga
Russell distingue, logo de início, vários tipos
de fadiga e sublinha que nem todos são inimigos da felicidade. A fadiga física
moderada pode até favorecer uma vida melhor, promove sono profundo, apetite e
dá sabor ao descanso. O problema surge quando o esforço físico é excessivo,
caso em que se transforma em tortura, historicamente visível no desgaste
precoce de mulheres camponesas e no sobre trabalho infantil da industrialização
inicial, ainda presente, segundo ele, em alguns contextos do seu tempo.
Nas sociedades mais avançadas, porém, Russell
considera que a grande ameaça já não é tanto a fadiga corporal, é a fadiga
nervosa. E paradoxalmente ela afeta mais os bem instalados, empresários e
trabalhadores intelectuais, do que muitos assalariados. A vida urbana moderna
cria um ambiente continuamente desgastante, ruído constante que obriga a um
esforço subconsciente para “não ouvir”, contacto permanente com estranhos que
exige inibir o instinto de avaliar cada desconhecido como potencial amigo ou
ameaça, pressa, transportes, irritação difusa, dispepsia. Chega-se ao trabalho
já com os nervos gastos e uma predisposição para ver os outros como incómodos.
Russell descreve uma cadeia de tensão social. O
empregado vive sob medo de despedimento, o patrão vive sob medo de falência.
Mesmo quando o sucesso chega, muitas vezes chega tarde, quando o homem já está
viciado em ansiedade, incapaz de desligar. E até os filhos de ricos, que
poderiam escapar, tendem a fabricar ansiedades equivalentes, através de
apostas, excessos e privação de sono, acabando igualmente incapazes de alegria.
O resultado é um padrão generalizado, as pessoas estão demasiado cansadas para desfrutar
da vida sem recorrer ao álcool.
A partir daqui, Russell desloca o problema para a
mente. Em muitos casos, diz ele, a fadiga nervosa nasce menos do trabalho em si
e mais da preocupação, e a preocupação é amplificada por falta de disciplina
mental. A maioria das pessoas não sabe parar de pensar no que as angustia
quando não pode agir. Leva as preocupações para a cama, rumina-as de noite num
estilo quase delirante, acorda com o julgamento turvo, o temperamento estragado
e intolerância a qualquer obstáculo. O homem sábio, pelo contrário, pensa nos
problemas apenas quando isso serve um propósito. Decide quando tem dados
suficientes, não revisita a decisão sem novos factos e evita a exaustão estéril
da indecisão.
Russell sugere também um reequilíbrio de escala.
Muitas ansiedades diminuem quando se reconhece que a questão não é tão
importante quanto o ego supõe. Dá o exemplo pessoal do medo de falar em
público. Enquanto tratava cada discurso como um evento decisivo, sofria e
falava pior; quando interiorizou que pouco mudava no universo se falasse bem ou
mal, o medo caiu e, ironicamente, o desempenho melhorou. A ideia central é que
a autocentralidade amplifica tudo, e que a atenção orientada para algo maior do
que o próprio ego cria uma paz inacessível ao egocentrismo.
Russell critica a forma como a psicologia e a
“ciência industrial” estudaram a fadiga, concentrando-se em medidas de fadiga
muscular ou escolar e ignorando o essencial. Para ele, o tipo decisivo de
fadiga moderna é emocional. A fadiga intelectual pura, como cálculos ou
trabalho mental sem carga afetiva, resolve-se naturalmente no sono. O que causa
“esgotamentos” não é o excesso de trabalho em si, é a carga emocional,
preocupação, medo, conflito, que impede o descanso. Um sinal típico de colapso
nervoso é a crença de que o próprio trabalho é “indispensável” e que não se
pode tirar férias. Russell chega a afirmar que, se fosse médico, receitaria
férias a qualquer pessoa que considerasse o seu trabalho extremamente
importante, porque esse estado mental costuma ser sintoma de fuga. Em muitos
casos, o indivíduo agarra-se ao trabalho para evitar pensar numa desgraça
emocional subjacente.
Ele aprofunda então a psicologia do medo. As
técnicas de disciplina mental ajudam, mas não chegam quando o problema vive no
inconsciente. Russell defende que é possível “plantar” uma convicção racional
no inconsciente através de intensidade e repetição, usando um método semelhante
ao que diz empregar na escrita. Concentrar-se intensamente numa questão durante
algum tempo e depois, por assim dizer, mandar o trabalho prosseguir “no
subterrâneo”. Aplica esta lógica ao medo e à preocupação, o método proposto é enfrentar
deliberadamente o pior cenário possível, olhar para ele sem evasivas e depois
construir razões sólidas para concluir que, mesmo assim, não seria uma
catástrofe absoluta, até porque nada do que nos acontece tem importância
cósmica. Repetido o processo, a preocupação diminui de forma surpreendente e
pode ser substituída por uma sensação de libertação.
A ideia-chave é que o medo piora quando evitado.
A técnica comum de distrair-se, trabalhar mais, divertir-se, tentar não pensar,
só aumenta o poder do “espectro”, porque é uma forma de reconhecer a sua
terribilidade. O remédio é o confronto racional e calmo, mas intenso, até que a
familiaridade torne o medo aborrecido. Quando isso acontece, o tema perde a
atração mórbida e a mente afasta-se dele por desinteresse, não por esforço.
Russell acrescenta uma crítica social e moral. A
cultura valoriza a coragem física, sobretudo na guerra, mas desvaloriza outras
coragens, em particular a coragem de enfrentar a opinião pública, de assumir
autonomia interior, de lidar com ameaças íntimas e mentais. As mulheres,
segundo ele, são até desincentivadas a mostrar coragem, e os homens são punidos
socialmente quando demonstram coragem fora do modelo guerreiro. Se a sociedade
admirasse todas as formas de coragem como admira a coragem física, haveria menos
medo, menos preocupação e, logo, menos fadiga nervosa.
O capítulo termina ligando a fadiga nervosa ao
tema do tédio e da excitação. Muitos procuram prazer intenso para compensar o
vazio e o cansaço do trabalho, mas esses prazeres são frequentemente os mais
desgastantes para os nervos. O apetite exagerado por excitação é sinal de
insatisfação ou distorção. Russell sugere, de forma crítica, que certas normas
morais e sociais, por exemplo a dificuldade cultural e económica de casar cedo,
empurram os jovens para hábitos de excitação que mais tarde podem inviabilizar
a capacidade de felicidade serena e até de um casamento feliz. Como o indivíduo
não controla leis e instituições, o conselho prático é racionar essas
excitações, não deixar que destruam a saúde nem a capacidade para prazeres mais
gentis.
Por fim, Russell descreve um efeito
particularmente destrutivo da fadiga nervosa. Ela funciona como um filtro entre
a pessoa e o mundo. As impressões chegam amortecidas, os outros são notados
apenas para irritar, o sol e a comida deixam de dar prazer, e a mente
estreita-se em torno de poucos objetos obsessivos. Assim torna-se impossível
descansar, e o cansaço cresce até exigir tratamento médico. Russell volta então
ao fio do capítulo anterior, esta é, em última instância, a penalização por se
ter perdido o contacto com a Terra e com um modo de vida mais orgânico, embora
reconheça que preservar esse contacto em grandes aglomerações urbanas levanta
questões sociais mais vastas que ele não pretende tratar aqui.
6 - A inveja
Russell apresenta a inveja como uma das causas
mais poderosas da infelicidade, a par da preocupação. É uma paixão universal e
precoce, visível em crianças muito pequenas, razão pela qual a educação
infantil exige, segundo ele, uma justiça distributiva rigorosa, pois a mínima
perceção de favorecimento é imediatamente sentida e ressentida. O que muda na
idade adulta não é a presença da inveja, é a sua expressão, torna-se mais
disfarçada, mas não menos comum.
Ele mostra como a inveja atravessa classes e
contextos, desde pequenos episódios domésticos até estruturas políticas. Vai ao
ponto de afirmar que a inveja é uma força motriz central da democracia real,
não da teoria idealizada da democracia. Russell diz aceitar que existem boas
razões filosóficas para preferir a democracia, mas insiste que grandes mudanças
políticas raramente são movidas por teorias puras, as teorias servem de
cobertura para paixões, e no caso democrático a paixão dominante teria sido, historicamente,
a inveja, o ressentimento contra quem ocupa o lugar “primeiro”.
No plano social, Russell descreve manifestações
de inveja particularmente marcantes em certos comportamentos coletivos. Nas
mulheres, segundo o retrato que traça, a inveja aparece como malevolência
rápida perante outras mulheres vistas como rivais, traduzindo-se em olhares
hostis, inferências depreciativas e gosto pelo escândalo. A moralidade punitiva
também desempenha um papel semelhante, castiga-se a “pecadora” não apenas por
virtude, mas porque se inveja a liberdade que se imagina nela. Nos homens, a
inveja tende a ser mais localizada, dirigida sobretudo a pares dentro da mesma
profissão, e revela-se quando se elogia um rival a alguém do mesmo meio,
artista com artista, político com político, especialista com especialista,
produzindo explosões de ciúme. A anedota sobre Leibniz e Huyghens a
“lamentarem” com deleite a suposta loucura de Newton serve para expor a
hipocrisia invejosa mesmo entre grandes espíritos.
A tese de Russell é dura. A inveja é talvez o
traço mais infeliz da natureza humana, porque tem dois efeitos simultâneos.
Leva a desejar o mal alheio e, quando possível, a infligi-lo, e ao mesmo tempo
tortura quem a sente, pois transforma os bens próprios em fonte de desagrado e
os bens alheios em veneno interior. A inveja pode ainda tornar-se inimiga da
excelência, porque, quando domina a vida social, exige que as vantagens dos
outros sejam cortadas, mesmo quando essas vantagens servem um bem público. Russell
ilustra com perguntas típicas do ressentimento igualitarista mal orientado, por
que razão o médico há de ter carro, o cientista há de trabalhar num quarto
quente, o talentoso há de ser poupado a tarefas domésticas. A inveja não
consegue responder de forma racional porque o seu impulso não é melhorar a vida
do invejoso, é reduzir a vantagem do outro.
Apesar disso, Russell introduz uma força
compensatória. Há também admiração. Se quisermos aumentar a felicidade humana,
devemos aumentar a admiração e diminuir a inveja, isto é, reforçar a capacidade
de apreciar a excelência alheia sem a traduzir automaticamente como humilhação
própria.
Quanto à cura, Russell não é sentimental. A cura
ideal seria a abnegação, mas nem os santos estão imunes à inveja. Para as
pessoas comuns, a cura é a felicidade, o que cria um círculo vicioso, a inveja
impede a felicidade e a felicidade dissolve a inveja. Russell responde que a
vida real não é tão logicamente fechada, porque compreender as origens da
inveja já é meio caminho para enfraquecê-la.
Ele aponta duas fontes importantes na infância.
Primeiro, experiências de preferência entre irmãos, que formam um hábito
permanente de procurar e imaginar injustiças, criando adultos que interpretam
tudo como desprezo e acabam por tornar real, pelo comportamento, a crença de
que “ninguém gosta deles”. Segundo, carência de afeto parental, que produz um
sentimento de exclusão, um destino de “Ismael”, e um ressentimento estrutural.
Algumas formas de felicidade são, para Russell, um direito de nascimento psicológico,
e a sua privação tende a deformar o carácter.
A parte mais prática do capítulo concentra-se num
alvo específico: o hábito de pensar por comparação. Russell considera esse
hábito fatal. Quando algo bom acontece, deve ser vivido por si mesmo, sem
convocar imediatamente a fantasia de que noutro lugar, noutro tempo, noutra
pessoa, seria melhor. A inveja destrói a experiência presente, o dia de sol
perde brilho, a música das aves vira ruído, o amor torna-se insuficiente porque
existe sempre uma figura mítica ou socialmente superior com que comparar. O erro
intelectual e moral está em não ver as coisas em si mesmas, mas apenas em
relação a outras coisas.
O remédio aqui é disciplina mental. Recusar
pensamentos inúteis, recusar comparações estéreis, concentrar-se em viver o que
se tem, fazer o trabalho que se tem de fazer, e não alimentar cenários
hipotéticos de fortuna alheia. Russell acrescenta uma ideia provocatória. O
sucesso não elimina a inveja, porque haverá sempre alguém mais bem-sucedido,
real ou imaginário. Até os grandes conquistadores, diz ele, invejaram
antecessores ou heróis míticos. A saída não é subir na escala, é abandonar a
escala como centro da vida interior.
Russell critica ainda a “modéstia” excessiva,
que, em vez de virtude, pode ser um combustível de inveja. Quem se sente sempre
menor precisa de validação constante, teme desafios e passa a ver os outros
como ameaça. Ele prefere, para a educação, alguma forma de autoconfiança
afirmativa, a metáfora do pavão é clara, cada pavão acredita ter a cauda mais
bela e por isso vive sem inveja. Se fosse educado a não ter boa opinião de si
mesmo, cairia em ressentimento moralista e em estratégias de destruição do outro,
transformando a inveja em “virtude” punitiva. É assim que a inveja se mascara
de moralidade e mata a excelência.
No plano social, Russell liga a inveja à
competição e à mobilidade moderna. Em hierarquias fixas, a inveja tem um
alcance mais limitado. Numa sociedade onde o estatuto é instável e onde a
ideologia igualitarista torna as comparações universalmente disponíveis, a
inveja expande-se. Ele admite que isso pode ser um preço de transição rumo a
uma sociedade mais justa, mas alerta para um risco, a justiça motivada por
inveja tende a ser a pior, aquela que busca reduzir o prazer dos afortunados em
vez de aumentar o bem-estar dos desfavorecidos. Por isso, reformas justas
deveriam ser movidas por forças melhores do que a inveja, sob pena de
produzirem políticas vingativas e empobrecedoras.
Russell mostra ainda como os males se encadeiam.
Fadiga alimenta inveja, quando alguém se sente inadequado e exausto, torna-se
mais propenso a ressentir-se de quem parece ter uma vida mais leve. E muita
inveja aparentemente profissional tem, para ele, uma raiz instintiva,
frequentemente sexual. Uma vida afetiva e familiar satisfatória reduz
drasticamente a inveja por riqueza ou estatuto, desde que haja o suficiente
para uma vida digna. A felicidade instintiva, diz ele, é rara no mundo
anglo-saxónico, especialmente entre mulheres, e a civilização teria aqui
falhado. Sem correções, teme uma deriva para um ciclo de ódio.
O capítulo termina alargando o foco. A inveja
moderna é amplificada pelos media e pela educação, que expõem as pessoas a
comparações com classes e povos distantes. Propaganda funciona melhor quando
excita ódio porque a alma moderna, insatisfeita, está mais predisposta a
ressentimento do que a amizade. Russell usa a imagem melancólica dos símios no
zoo, com um olhar triste, como se sentissem que “deveriam” ser outra coisa.
Algo semelhante terá entrado no homem civilizado, pressente um bem possível
quase ao alcance, mas não sabe como alcançá-lo, e então descarrega a frustração
contra os outros, igualmente perdidos.
A conclusão é ambivalente. A inveja é um mal e
causa estragos terríveis, mas também expressa uma dor humana real, quase
heroica, de quem caminha às cegas numa noite de transição evolutiva. Para sair
desse desespero, Russell propõe uma expansão moral paralela à expansão
intelectual. É preciso alargar o coração, transcender o eu, e assim conquistar
uma forma de liberdade mais vasta.
7 - O sentimento
de culpa
Russell trata o “sentido de pecado” como uma das
causas psicológicas mais profundas da infelicidade adulta. Começa por rejeitar
a psicologia religiosa tradicional, sobretudo a protestante, que via a
consciência como “voz de Deus” e distinguia entre remorso e arrependimento
redentor. A modernidade, em parte por influência da psicanálise, mostrou que a
consciência varia de cultura para cultura e tende a acompanhar os costumes do
grupo, não uma verdade universal. Assim, o que acontece realmente quando a consciência
acusa?
Russell observa que a “consciência” cobre
realidades muito diferentes. A forma mais simples é o medo de ser descoberto e,
por isso, punido ou envergonhado. O “infractor respeitável” consegue esquecer o
que fez enquanto se sente seguro, mas quando a descoberta se aproxima surge um
arrependimento intenso, que é mais medo do que ética. Há ainda o receio de ser
excluído do grupo, de perder estatuto e pertença. Aqui, quem viola regras que
aceita como legítimas sente-se esmagado quando perde a sua posição social, ao
contrário do inovador religioso, do revolucionário ou do anarquista, que podem
suportar o ódio do presente porque acreditam numa validação futura.
Mas o núcleo do capítulo vai mais fundo. O
sentido de pecado mais importante não é social nem consciente, é inconsciente.
Manifesta-se como culpa difusa, desconforto sem causa clara, admiração moral
por uma santidade quase irrealizável e, sobretudo, uma vida inteira vivida com
a sensação de que “o melhor não é para mim”, alternando impulsos normais com
momentos de penitência melosa e inferioridade.
A origem, diz Russell, está quase sempre na moral
ensinada antes dos seis anos, por mães e amas. Nessa idade, a criança aprende
tabus e associações emocionais, não argumentos. Aprende que certas palavras são
“más”, que álcool e tabaco são indignos, que mentir é sempre pecado, e acima de
tudo que qualquer interesse nos órgãos sexuais é abominável. Como o amor e a
aprovação da figura cuidadora são o maior bem da infância, a criança associa
desaprovação a um terror vago e absoluto. Mais tarde esquece a fonte e as
penalizações originais, mas mantém a sensação de ameaça, como se algo terrível
“tivesse” de acontecer se infringir certas regras.
Russell critica a irracionalidade desse código
infantil quando transportado para a vida adulta. Não há base racional para
tratar o palavrão como indicador de vício moral. O mesmo vale para álcool e
tabaco, com variações culturais e sem fundamento ético consistente. Por trás
destes tabus, diz ele, há um ascetismo quase invisível, a ideia de que o santo
não faz nada “só por prazer”. Russell opõe-lhe uma ética racional, onde dar
prazer é bom, inclusive a si mesmo, desde que não exista dano compensatório para
si ou para os outros.
Ele estende a crítica à mentira. Defende maior
verdade como regra geral, mas recusa a absolutização. Conta o exemplo do raposo
perseguido pela caça, quando mentiu aos caçadores para não facilitar a morte do
animal. Para Russell, isto mostra que a moralidade racional não pode ser um
conjunto de proibições cegas.
O ponto mais grave, contudo, é o sexo. A
associação precoce entre sexo e pecado, reforçada por dinâmicas como o complexo
de Édipo, torna-se muito difícil de desfazer. Daí derivam distorções comuns.
Homens que veem o sexo como degradante e não respeitam a mulher se ela tiver
prazer, o que produz casamentos frios e, depois, procura de satisfação fora do
casamento, sempre envenenada por culpa. Do lado feminino, quando a “pureza” foi
inculcada com força, surge medo do prazer e retração, embora Russell observe que,
no seu tempo, este problema já era menos frequente nas mulheres educadas, e
mais persistente nos homens.
Russell reconhece que há crescente consciência
pública dos danos de uma educação sexual moralista na infância, e formula uma
regra simples, não ensinar moral sexual antes da puberdade, não criar nojo de
funções naturais, e quando chegar o tempo de instrução moral, fazê-lo com
razões claras. Mas o foco do livro é o adulto, e a pergunta é como reduzir,
agora, os efeitos dessa educação mal feita.
A resposta de Russell liga-se a um tema
recorrente nos capítulos anteriores, fazer a razão penetrar no inconsciente. O
sentido de pecado intensifica-se quando a vontade consciente enfraquece,
fadiga, doença, álcool, e nesses momentos a pessoa tende a tratar a culpa como
uma revelação do “eu superior”. Russell diz que isto é absurdo, a fraqueza não
dá mais verdade do que a força. O padrão deveria ser o que o indivíduo acredita
racionalmente quando está lúcido e vigoroso. E propõe uma técnica prática. Quando
surgir remorso por algo que a razão não condena, deve-se examinar a origem do
remorso e desmontar a sua absurdidade com detalhe, até que a convicção racional
seja suficientemente viva para competir com a impressão emocional deixada pela
infância. Nada de alternar entre lucidez e superstição, é preciso desafiar
imediatamente os pensamentos irracionais, arrancá-los “pela raiz”, analisá-los
e rejeitá-los.
Russell incentiva uma irreverência saudável
perante a autoridade moral infantil, mães, amas, sacerdotes, e pergunta se o
mundo é mesmo melhor por causa desse ensino. A moral tradicional, diz ele,
gastou energia a vigiar perigos imaginários, enquanto ignorou os perigos morais
reais, práticas desleais nos negócios, crueldade com subordinados, dureza com
família, malevolência contra concorrentes, ferocidade política. Estes são os
comportamentos que realmente espalham sofrimento e corroem a civilização, mas
raramente são eles que acionam pesadelos e culpa infantil. A culpa está
divorciada da razão porque o código moral da infância era uma coleção de tabus
irracionais, sem relação séria com deveres para com a comunidade, e contaminada
por um ascetismo mórbido.
Mesmo quando alguém viola o seu próprio código
racional, Russell duvida que o “sentido de pecado” seja o melhor mecanismo de
correção. Há nele algo de abjeto e sem autorrespeito. E sem autorrespeito não
há melhoria. O homem racional observa os seus próprios atos indesejáveis como
observa os dos outros, efeitos de circunstâncias e hábitos, e procura evitá-los
por melhor compreensão ou por mudança das circunstâncias, não por autopunição
humilhante.
Russell conclui que o sentido de pecado não
promove a virtude, promove infelicidade, inferioridade e, por consequência,
relações pessoais difíceis, exigências emocionais excessivas, rancor contra
quem parece superior, facilidade em invejar e dificuldade em admirar. Em vez
disso, a vida boa exige integração mental, harmonia entre camadas consciente,
subconsciente e inconsciente, para que a pessoa não viva em guerra interior. A
psicanálise tenta esse trabalho, mas Russell acredita que muitas pessoas o podem
fazer sozinhas, desde que não caiam numa autoanálise que aumenta a autoabsorção.
A integração saudável é orientada para fora.
Ele termina defendendo a razão contra a acusação
de matar emoções. A função da razão não é fabricar emoção, é remover emoções
que bloqueiam o bem-estar, como ódio, inveja e culpa supersticiosa. As emoções
boas, amor, afeto parental, amizade, benevolência, devoção à ciência ou à arte,
não são inimigas da razão. Pelo contrário, a racionalidade cria liberdade
interior e energia para fins externos. Nada é mais aborrecido do que ficar
fechado no eu, nada é mais vital do que ter a atenção dirigida para o mundo.
O sentido de pecado é, para Russell, um produto
de uma moral demasiado autocentrada. Para quem nunca foi atingido por ela, a
razão pode parecer supérflua. Para quem foi, a razão é o remédio. E o critério
final de felicidade é claro. A felicidade que precisa de intoxicação é falsa e
insatisfatória. A felicidade autêntica acompanha-se do exercício pleno das
faculdades e de uma consciência plena do mundo.
8 - A mania da
perseguição
Russell parte da forma clínica da mania de
perseguição, como delírio de ser alvo de danos graves, mas interessa-se pelas
versões moderadas, comuns em pessoas “normais”, e que são fonte frequente de
infelicidade. O traço típico é a convicção persistente de ser vítima de
ingratidão, hostilidade ou traição. Estas pessoas contam histórias plausíveis,
conseguem simpatia rápida, e só mais tarde surgem dúvidas, não pelo detalhe de
cada episódio, mas pelo número improvável de “vilões” que dizem encontrar. A
dificuldade é que a doença piora tanto com a credulidade como com a descrença.
Se acreditam nelas, aumentam e adornam o relato; se não acreditam, isso vira
mais uma prova de que o mundo é cruel e injusto para com elas.
O objectivo do capítulo é dar ao leitor
instrumentos de diagnóstico interno, porque é impossível ser feliz quando se
vive a sentir que os outros nos maltratam.
Russell identifica uma raiz quotidiana desta
tendência: a hipocrisia universal perante a maledicência. Quase todos dizem
coisas desagradáveis sobre terceiros, mas ficam chocados quando descobrem que
dizem o mesmo sobre eles. Esperamos dos outros a ternura e o respeito que
reservamos para nós próprios, e esquecemos que não pensamos deles melhor do que
eles pensam de nós. Se pudéssemos ler pensamentos, diz Russell, o primeiro
efeito seria destruir muitas amizades; o segundo poderia ser benéfico, porque
aprenderíamos a gostar uns dos outros sem exigir a ilusão de perfeição. Moral
principal aqui: ninguém deve esperar ser perfeito, nem levar demasiado a sério
o facto de não o ser.
Para Russell, a mania de perseguição assenta num
exagero do próprio mérito. Quando alguém acredita ser claramente brilhante, por
exemplo o dramaturgo que se considera o maior do seu tempo, mas não tem
sucesso, tende a explicar o insucesso como conspiração de críticos, actores e
gestores, e ainda por cima uma conspiração “honrosa”, porque ele não bajula,
diz verdades duras, e por isso incomoda. O mesmo padrão aparece no inventor
ignorado e no denunciante que descobre um escândalo real, mas generaliza a partir
de uma experiência parcial e conclui que “os poderosos” vivem apenas para
encobrir crimes. Aqui há alguma verdade, e por isso o erro torna-se mais
obstinado. O problema é a desproporção, um caso pessoal passa a ser a chave do
universo.
Há ainda um tipo diferente, o filantropo ou
moralizador que faz “bem” contra a vontade dos outros e depois se surpreende
com a falta de gratidão. Russell sugere que muitas vezes esse “bem” esconde
motivos pouco admitidos: amor ao poder, vaidade, e até inveja, porque “fazer o
bem” frequentemente significa tirar prazeres alheios, bebida, jogo, ócio,
tabaco. Quando os visados não agradecem, o benfeitor sente-se mártir e reforça
a narrativa de perseguição. Russell estende a mesma lógica ao político que concentra
poder em nome de fins nobres e depois fica indignado quando o povo se volta
contra ele, incapaz de reconhecer o prazer de mandar como parte do motor da sua
acção.
Destas observações, Russell extrai quatro máximas
preventivas, se forem interiorizadas a sério.
Primeira máxima, desconfia dos teus motivos,
porque raramente são tão altruístas como parecem. Idealismo pode mascarar amor
ao poder e vaidade. A moral convencional exige um altruísmo acima do que a
natureza humana suporta, levando pessoas “virtuosas” a autoenganarem-se sobre a
própria pureza, e esse autoengano abre caminho à sensação de injustiça e
perseguição quando o mundo não responde com gratidão.
Segunda máxima, não sobrestimes os teus méritos,
não apenas morais, mas também de talento e competência. O dramaturgo deve
admitir a hipótese simples, as peças podem ser más. Existem casos de mérito não
reconhecido, mas são menos frequentes do que casos de falta de mérito com
pretensão. Russell propõe um teste prático para quem se sente génio ignorado.
Produzes por compulsão interna de exprimir algo, ou sobretudo pela necessidade
de aplauso? No artista genuíno o aplauso é secundário, no aspirante movido a aplauso,
se este falha, talvez deva mudar de rumo. Em geral, se os outros não te avaliam
como tu te avalias, não assumes automaticamente que há uma conspiração.
Reconhecer limites dói, mas é uma dor finita, e abre de novo a possibilidade de
uma vida feliz.
Terceira máxima, não esperes demasiado dos
outros. Russell dá o exemplo do familiar doente que exige sacrifícios extremos.
É crucial lembrar que cada pessoa vive a partir do seu próprio centro e não do
teu. Não se deve exigir que alguém distorça a linha principal da sua vida por
outro, a menos que o sacrifício seja espontâneo por afecto genuíno. Muitas
queixas de “ingratidão” são, na verdade, reacções saudáveis ao egoísmo
expansivo de quem exige demais.
Quarta máxima, lembra-te de que os outros pensam
menos em ti do que tu pensas. O delirante imagina perseguição constante por
pessoas ocupadas com a própria vida. O semi-delirante interpreta omissões
banais como ataques, ou como elogios secretos, o jornal não publicou a tua foto
porque te teme. Esta fantasia lisonjeia a vaidade, mas não dá felicidade
sólida. Obriga a inventar hipóteses cada vez mais rebuscadas, gera tensão
mental, e compra autoestima ao preço de te sentires em guerra com o mundo.
Russell fecha com uma regra dura e libertadora: nenhuma satisfação baseada em
autoengano é estável. Por desagradável que seja, é melhor encarar a verdade,
habituar-se a ela, e construir a vida a partir daí.
9 - O medo da
opinião pública
Russell começa com uma ideia simples e amarga:
pouca gente consegue ser feliz se, no essencial, o seu modo de vida e a sua
visão do mundo não forem aprovados por quem a rodeia, sobretudo por quem vive
com ela. O problema agrava-se na modernidade porque as comunidades se
fragmentaram em “conjuntos” sociais com morais e crenças incompatíveis. Assim,
alguém pode ser tratado como perverso num meio e perfeitamente normal noutro.
Muito sofrimento juvenil nasce daqui, porque o jovem tende a achar que o meio
onde vive representa “o mundo”, e não imagina que, noutro círculo, as suas
ideias seriam banais.
Essa pressão tem custos que vão além da dor.
Dissipa energia, obriga a uma espécie de resistência permanente, e quase sempre
produz timidez intelectual, a pessoa deixa de seguir as ideias até ao fim por
medo do choque com o meio. Russell dá exemplos de isolamento mental extremo, as
Brontë, Blake, e sublinha que poucos têm uma força interior suficiente para
viver assim. Para a maioria, “ambiente simpático” é condição de felicidade, e é
precisamente a minoria inteligente e criativa que mais sofre quando nasce em
meios hostis à leitura, à arte, à diferença de carreira, à crítica religiosa ou
política da família. Para esses, a adolescência é frequentemente um período
sombrio, ao contrário dos pares mais conformados.
Quando chegam à universidade, muitos descobrem
afinidades e respiram. Mas, na vida adulta, sobretudo se forem obrigados a
viver em lugares pequenos e a manter “respeitabilidade” perante o público, por
exemplo médico ou advogado, podem sentir-se compelidos a esconder gostos e
convicções para sobreviver socialmente. Russell descreve uma solidão típica,
pessoas que sabem por livros que há lugares onde não seriam solitárias, mas não
conseguem viver lá, nem ter conversas afins com regularidade. Só os muito raros,
feitos do material de Blake ou Emily Brontë, resistem sem dano.
Daqui, Russell tira duas linhas de resposta. A
primeira é táctica, em muitos casos o problema piora por timidez desnecessária.
A opinião pública é mais tirânica com quem mostra medo. Quem se afasta de
pequenas convenções, roupa, igreja, livros, e o faz com leveza espontânea, sem
pose desafiante, acaba muitas vezes tolerado, até ganha estatuto de “excêntrico
licenciado”. O segredo, diz ele, é boa disposição e simpatia, porque os
convencionais enfurecem-se quando sentem que a diferença os critica. Se percebem
que não há desprezo, perdoam mais.
Mas esta táctica não serve a todos. Quem está em
profunda dissonância com o seu meio tende a ficar irritável, defensivo, com
atitude combativa, mesmo quando aparenta conformidade. Russell observa um
fenómeno curioso, ao mudar de círculo, essas pessoas “mudam de carácter”. Onde
eram retraídas e angulosas, ficam confiantes, sociáveis, leves. A conclusão
prática é clara: sempre que possível, os jovens devem escolher carreira e
contexto de vida que permitam companhia congenial, mesmo que isso custe
rendimento. Muitas vezes nem sabem que podem fazer essa escolha, por
desconhecimento do mundo; aqui, os mais velhos têm um papel valioso, abrir
horizontes.
Russell critica ainda a leitura psicologizante,
típica da moda psicanalítica, que vê “desajuste” como patologia. Nem sempre. Se
os pais acham a evolução “maligna”, basta inteligência para haver conflito.
Estar em desarmonia com um ambiente estúpido, preconceituoso ou cruel pode ser
sinal de mérito, não de doença. O que importa é reduzir a hostilidade social,
não esmagar a diferença.
A segunda linha é ética e estratégica no longo
prazo. Russell defende que, fora a opinião especializada, se respeita demasiado
a opinião alheia, tanto em assuntos grandes como pequenos. Deve respeitar-se a
opinião pública apenas na medida necessária para não passar fome e não ir
preso. O resto é submissão voluntária a uma tirania que estraga a felicidade.
Dá um exemplo muito concreto, despesas feitas para impressionar vizinhos,
carro, jantares, em vez de viagens ou biblioteca, mesmo quando esses seriam os
prazeres genuínos. Não vale a pena “afrontar” deliberadamente a convenção, isso
é continuar dominado por ela, só que ao contrário. O ideal é indiferença
autêntica, que é força e fonte de alegria. Sociedades com pessoas naturais, sem
uniformidade, são mais interessantes, porque cada um não é réplica do anterior.
Russell também nota uma mudança estrutural: com
mobilidade e meios de transporte, a pessoa depende menos dos vizinhos imediatos
e pode escolher companhia por afinidade, não por proximidade. Isso deveria
reduzir a solidão dos não conformes, embora retire aos conformes um prazer
sádico, ter os outros “à mercê”.
No fim, Russell adverte para um novo medo
moderno, mais perigoso do que o do vizinho, o medo do que a imprensa pode
dizer. Quando um jornal escolhe um bode expiatório, a vida do alvo pode
tornar-se intolerável, algo comparável, no terror social, às perseguições
antigas. Aqui Russell já não recomenda simplesmente desprezo individual.
Defende que a linha legal terá de ser traçada com mais rigor do que pelos
mecanismos de difamação existentes, proibindo o que destrói a vida de
inocentes, mesmo que tenham dito ou feito coisas que, publicadas
maliciosamente, os tornem impopulares.
Ainda assim, a cura última não é jurídica, é
civilizacional: aumentar a tolerância do público. E o melhor motor da
tolerância seria uma coisa quase subversiva, multiplicar o número de pessoas
genuinamente felizes, porque quem está satisfeito tem menos necessidade de
encontrar prazer em infligir dor aos outros.
Segunda Parte – As Causas da Felicidade
10 - A
felicidade é ainda possível?
Russell muda o foco. Depois de dissecar o homem
infeliz, passa ao homem feliz, e começa por recusar a tese, muito comum entre
intelectuais, de que a felicidade se tornou impossível no mundo moderno. Diz
que essa impressão se desfaz quando olha para dentro, quando viaja, e quando
fala com pessoas “simples”, como o seu jardineiro. A felicidade existe, só não
é distribuída segundo o mapa mental dos círculos literários.
Ele propõe duas espécies de felicidade, com
gradações intermédias. Uma é acessível a qualquer pessoa, a outra exige
alfabetização, cultura, vida mental mais complexa. A primeira aparece em
figuras como o cavador de poços e o jardineiro. A alegria deles vem de vigor
físico, trabalho suficiente, obstáculos reais, e uma luta contínua contra um
inimigo concreto, os coelhos. A felicidade não depende de uma doutrina, nem de
uma metafísica, nem de uma teoria política.
E Russell desmonta a objecção do leitor
“superior”: não há nada de indigno nessa alegria. O que muda com a educação não
é a estrutura emocional do prazer, é apenas o tipo de actividade que a
desencadeia. Em vez de “coelhos”, pode ser um bacilo, um problema de
engenharia, uma tese, uma máquina, uma causa, desde que exista um campo de
acção com resistência suficiente para tornar o sucesso incerto, mas alcançável.
Daqui, Russell tira uma regra prática com sabor
de psicologia: uma estimativa moderada das próprias capacidades é um motor de
felicidade. Quem se subestima surpreende-se com sucessos, e isso dá alegria.
Quem se sobrestima surpreende-se com falhas, e isso envenena.
Entre os instruídos, Russell afirma que, no seu
tempo, os mais felizes são os homens de ciência. Não por serem mais virtuosos,
mas porque reúnem condições quase perfeitas: trabalho absorvente, progresso
visível, resultados reconhecidos como importantes por si e pelos outros, mesmo
quando o público não entende nada.
Aqui ele contrapõe ciência e arte. Quando o
público não entende um poema ou um quadro, conclui que a obra é má. Quando não
entende a relatividade, conclui que ele próprio é que não chega lá. Resultado:
o cientista é honrado, o artista é frequentemente esmagado pela indiferença ou
pela suspeita. Para Russell, a infelicidade do artista é, em parte, estrutural:
viver a ter de se afirmar contra a incredulidade da maioria é uma vida de
fricção constante.
Russell diz algo provocador: o cinismo dos jovens
muito educados no Ocidente nasce da combinação entre conforto e impotência.
Impotência gera a sensação de que nada vale a pena, conforto torna essa
sensação suportável, e assim o cinismo instala-se como postura. Em contraste,
ele descreve a felicidade, ou pelo menos a vitalidade feliz, do reformador e do
revolucionário, sobretudo onde há um mundo a construir e uma crença colectiva
forte.
Nesta parte, ele idealiza o “jovem russo” do pós-Revolução,
e sugere que, mesmo que a crença seja crua para o intelectual sofisticado, ela
é “justificada” pragmaticamente se produzir energia, sentido e melhoria média
da vida. Não está a dizer que é um paraíso, está a dizer que a sensação de
agência e missão é um antídoto potente contra a esterilidade interior.
Ele alarga a ideia: não é só o grande cientista
ou o líder político. Qualquer pessoa pode obter prazer profundo através de
competência especializada, desde que não exija aplauso universal. Dá exemplos
deliciosamente concretos: um homem sem uso das pernas que escreve cinco volumes
sobre uma doença das roseiras, compositores tipográficos peritos em tipos
difíceis, técnicos com orgulho no ofício.
E faz uma defesa do “mundo das máquinas”: a
modernidade não mata necessariamente o artesanato, apenas o desloca. Há uma
diferença entre trabalho qualificado e “vigiar máquinas” repetitivamente.
Russell aposta num futuro em que o aborrecido seja cada vez mais feito por
máquinas, libertando as pessoas para tarefas com variedade e iniciativa. Nesse
horizonte, a vida laboral poderia ser menos tensa e menos deprimente do que na
era agrícola, que ele descreve como longa submissão à monotonia, ao clima, ao
isolamento.
Russell distingue ainda três camadas.
Primeiro, crença numa causa, não necessariamente
grandiosa. Pode ser uma causa séria e terrena, e quando é genuína dá ocupação
para o tempo livre e corta pela raiz a sensação de vazio.
Segundo, hobbies e coleccionismos. Podem ser uma
fonte real de prazer, e ele recusa o snobismo que os chama infantis. No
entanto, avisa: muitas vezes são sobretudo uma fuga a uma dor não encarada.
Terceiro, o núcleo da felicidade “fundamental”: o
que ele chama um interesse amigável por pessoas e por coisas.
No caso das pessoas, ele contrasta duas formas de
afecto. A possessiva, exigente, que precisa de resposta enfática e admiração,
tende a produzir infelicidade. A amigável é curiosa, observadora, gosta das
singularidades alheias, quer dar espaço aos interesses dos outros sem os
controlar. Quem tem isto, quase sem esforço, torna-se bom companheiro, recebe
reciprocidade, não se amarga com “ingratidões”, e até se diverte com manias que
a outros irritariam.
No caso das coisas, ele fala de um interesse
impessoal “amistoso”, como o do geólogo pelas rochas ou do historiador por um
concílio. A ideia é libertadora: o mundo é vasto, e se a nossa felicidade ficar
confinada ao que nos acontece pessoalmente, pedimos demais à vida, e acabamos a
receber menos. O interesse impessoal, quando é genuíno, cria distância,
serenidade e uma espécie de descanso mental que melhora a forma como
regressamos aos problemas.
Russell termina com uma frase que funciona como
lema:
Aumenta os teus interesses o máximo possível, e
faz com que as tuas reacções ao que te interessa sejam, tanto quanto possível,
amigáveis e não hostis.
11 – A vitalidade
Russell identifica o zest, isto é, a vitalidade,
como o traço mais universal e distintivo das pessoas felizes. Para a explicar,
começa com uma analogia simples, as diferentes atitudes perante uma refeição.
Há quem coma por tédio, por dever, por exigência crítica excessiva ou por
voracidade, e há quem coma com apetite saudável, desfrute e pare quando chega.
O homem feliz corresponde a este último tipo. Tal como a fome em relação à
comida, a vitalidade é a disposição básica em relação à vida.
Os outros tipos, o
desencantado, o asceta, o voluptuoso e o fastidioso, tendem a desprezar quem
vive com apetite pela vida normal,
considerando-o vulgar. Russell rejeita frontalmente essa atitude. Para ele, o
desencanto não é sabedoria, é uma doença. Gostar intensamente da vida não torna
uma pessoa inferior; pelo contrário, fornece-lhe uma fonte adicional de prazer
e torna-a melhor adaptada ao mundo. Quem se interessa por mais coisas tem mais
oportunidades de felicidade e depende menos do acaso, porque pode sempre
substituir uma perda por outro interesse.
A perda de vitalidade está ligada a uma viragem
excessiva para dentro. Russell ilustra este fenómeno com a metáfora da máquina
de salsichas que deixa de transformar porco em alimento porque decide estudar
apenas o seu próprio mecanismo. A mente, diz ele, precisa de materiais vindos
do mundo exterior. Sem interesse pelos acontecimentos, estes não se transformam
em experiência. Quem se fixa apenas em si próprio encontra vazio; quem se volta
para fora acumula matéria rica que, mesmo quando reflecte sobre si, encontra
algo vivo para recombinar.
A vitalidade
manifesta-se de múltiplas formas, na curiosidade intelectual, na observação das
pessoas, na viagem vivida como descoberta e não como simples deslocação
confortável, e na capacidade de retirar interesse até de experiências
desagradáveis. Para quem possui vitalidade, mesmo um infortúnio pode ser
integrado como conhecimento do mundo. Russell reconhece que a perda de saúde
pode destruir esta disposição, mas observa que muitos a conservam quase até à
morte.
A vitalidade pode
ser geral ou altamente especializada. Um interesse muito específico pode salvar
alguém do tédio ou da dor, como no exemplo do homem que aprende chinês para
suportar a perda da mulher. No entanto, interesses demasiado estreitos
constituem uma base menos sólida para a felicidade do que uma curiosidade
ampla, pois não ocupam toda a vida e podem esgotar-se.
Russell distingue então a vitalidade saudável da
voracidade excessiva. Retoma a virtude clássica da moderação. Uma paixão só
contribui para a felicidade se couber no quadro geral da vida, respeitando a
saúde, as relações afectivas, os deveres sociais e os meios de subsistência.
Quando uma única paixão devora todas as outras, o resultado é o empobrecimento
da vida, mesmo que essa paixão seja intelectual. O excesso revela muitas vezes
uma tentativa de fugir a um mal-estar profundo. Há, contudo, diferenças importantes
entre fugas destrutivas, como o álcool ou o jogo, e fugas que mobilizam
capacidades valiosas, como o estudo ou a criação.
A vitalidade,
afirma Russell, é natural nos seres humanos. As crianças interessam-se por
tudo, os animais mantêm essa curiosidade enquanto têm saúde. A sua perda na
vida civilizada deve-se em grande parte às restrições constantes da
espontaneidade impostas pela organização social moderna, baseada em hábitos
regulares e motivos indirectos. Essas restrições são inevitáveis, mas consomem
energia e favorecem o tédio. Para preservar a vitalidade, é necessário ter
saúde, energia excedente ou trabalho intrinsecamente interessante, bem como
evitar conflitos psicológicos internos que desperdiçam força vital.
Russell aplica esta análise também à condição
feminina. Durante muito tempo, uma ideia errada de respeitabilidade ensinou às
mulheres a refrear vivacidade, curiosidade e interesse pelos outros, sobretudo
pelos homens. O resultado foi frequentemente a perda de vitalidade, substituída
por uma vigilância moral rígida e por uma hostilidade disfarçada. Trata-se,
para Russell, de um sistema de repressão que mutila a alegria e empobrece o
carácter. Não existe, em essência, uma excelência masculina e outra feminina
distintas. Para ambos, a vitalidade é condição central da felicidade e do
bem-estar.
O capítulo afirma,
em suma, que a felicidade depende menos das circunstâncias externas do que da
capacidade de manter um interesse vivo,
equilibrado e generoso pelo mundo, apesar das restrições inevitáveis
da vida civilizada.
12 - A afeição
Russell liga directamente a afeição à vitalidade. A perda de vitalidade nasce
muitas vezes da sensação de não ser amado; inversamente, sentir-se amado é,
para a maioria das pessoas, o mais poderoso reforço do interesse pela vida.
Quem se sente não amado pode reagir de vários modos: tentar comprar afeição
através de bondade ostensiva, cair na amargura e procurar vingança contra o
mundo, ou afundar-se numa desesperança tímida que conduz ao autofechamento e à
submissão à rotina, vista como forma de evitar um mundo percebido como frio e
ameaçador.
O eixo central do
capítulo é a ideia de segurança psicológica.
A autoconfiança verdadeiramente útil, aquela que permite enfrentar riscos sem
sucumbir ao medo, nasce sobretudo do hábito de ter recebido afeição suficiente
e do tipo certo, em especial na infância. A criança que se sente amada aceita
esse apoio como um dado natural e volta-se para fora, para o mundo e para a
exploração. A criança a quem o afecto é retirado tende a tornar-se tímida,
autocentrada e receosa, podendo desenvolver desde cedo uma inclinação para
sistemas filosóficos ou teológicos rígidos. Russell sugere que, em muitos
casos, a necessidade de impor ordem total ao universo é uma forma de medo, uma
tentativa de substituir um mundo imprevisível por um mundo mentalmente
controlável.
Nem todo o afecto, porém, gera coragem. O afecto
que protege por medo, como o de uma mãe excessivamente ansiosa ou possessiva,
pode produzir dependência e fragilidade, deixando a pessoa pior do que estaria
se não fosse amada. Russell defende um afecto robusto, que deseja a excelência
mais do que a simples segurança. A preocupação antecipatória com a desgraça
deve ser mínima, porque o medo pelos outros é quase tão corrosivo como o medo
por nós próprios e pode funcionar como disfarce da vontade de domínio.
Na idade adulta, o
afecto recebido mantém a função de conferir segurança, mas adquire também uma
dimensão biológica e existencial, ligada ao amor sexual e à possibilidade de
parentalidade. A incapacidade de inspirar amor é vista como uma grave privação,
por afastar a pessoa de uma das maiores fontes de alegria e por favorecer a
introversão. Russell observa ainda que, em geral, as mulheres tenderiam a amar
mais pelo carácter e os homens mais pela aparência, criticando implicitamente
esta hierarquia de critérios.
Russell distingue
então dois modos de afecto dado. Um é o afecto de quem navega em mar calmo e
aprecia o outro pelo que ele é, um movimento voltado para fora, expansivo e
admirativo. O outro é o afecto do náufrago, que ama como quem se agarra a uma
bóia, por necessidade de segurança. Este segundo tipo é legítimo e frequente,
mas é menos excelente, porque nasce do medo e tem um carácter mais
instrumental. No melhor afecto, procura-se uma felicidade nova, não apenas a
fuga a uma infelicidade antiga.
O ideal proposto é o afecto recíproco, vitalizante, em que ambos recebem com
alegria e dão sem esforço, e em que essa reciprocidade torna o mundo mais
interessante para ambos. Em contraste, Russell descreve relações assimétricas,
em que uma pessoa absorve a vitalidade da outra, prospera à custa de sucessivas
vítimas e utiliza os outros como meios, não como fins. Esta incapacidade de
reciprocidade é associada a uma visão estreita da felicidade, frequentemente
ligada à ambição, ao ressentimento e a um ego excessivamente fechado, que acaba
por se tornar uma prisão.
Por fim, Russell
critica os obstáculos psicológicos e sociais à reciprocidade afectiva. A
prudência excessiva, tanto moral como mundana, desencoraja a generosidade e a
aventura no amor, produzindo timidez, frustração e, por vezes, hostilidade
contra a humanidade. Ele não idealiza a promiscuidade, reconhecendo que muitas
relações sexuais carecem de afecto genuíno e podem mesmo envolver hostilidade;
ainda assim, afirma que as únicas relações de verdadeiro valor são aquelas sem
reticência, em que há entrega mútua e uma fusão numa espécie de personalidade
comum. A cautela no amor, conclui Russell, é talvez a forma de cautela mais
fatal para a felicidade.
13 - A família
Russell começa com um diagnóstico duro: a família
é, entre as instituições herdadas, a mais desorganizada, e apesar de poder ser
uma grande fonte de felicidade, torna-se frequentemente uma fonte de sofrimento
para pais e filhos. O capítulo limita-se ao que o indivíduo pode fazer já, sem
depender de reformas sociais, embora reconheça que boa parte do problema é
económica e estrutural.
Aponta três blocos de causas modernas para a
crise familiar.
Primeiro, mudanças económicas e sociais que
tornaram a maternidade mais pesada, sobretudo nas classes profissionais. A
abertura de carreiras às mulheres solteiras retirou à mulher instruída o
incentivo antigo, e forçado, para casar; a vida de solteira pode agora ser
confortável e autónoma, desde que não surja o desejo de ter filhos. Se esse
desejo aparece, o casamento tende a implicar perda de trabalho e perda de
independência económica, o que torna a maternidade menos atractiva. A isto
soma-se a decadência do serviço doméstico, que, no quadro descrito por Russell,
prende a mãe a tarefas pequenas e repetitivas, desgasta-lhe o espírito,
empobrece a vida conjugal e cria ressentimento, tanto por sentir que sacrificou
demasiado, como por exigir em troca mais do que é razoável.
Segundo, a urbanização e a dificuldade de
habitação: a vida em apartamentos pequenos, sem espaço, torna a infância mais
difícil, aumenta o cansaço dos pais e empurra a família para os subúrbios, o
que, por sua vez, rouba tempo ao pai e enfraquece a presença familiar. Russell
não desenvolve esta vertente porque a vê como matéria de política económica,
mas usa-a para mostrar que a infelicidade familiar não é apenas psicológica.
Terceiro, a transformação psicológica associada à
expansão da sensibilidade democrática. O modelo antigo, assente em autoridade e
obediência, produzia prazeres unilaterais, pais satisfeitos e filhos
frequentemente oprimidos. O modelo moderno procura relações satisfatórias para
ambos, mas, em transição, gera hesitação e atrito. Pais já não se sentem
seguros nos seus direitos, filhos já não sentem o dever de respeito automático.
A psicanálise, na leitura de Russell, ainda agravou a ansiedade parental, porque
introduziu um medo permanente de causar dano com qualquer gesto, com afecto a
mais ou a menos, com disciplina a mais ou a menos. Resultado: uns pais pedem
demasiado aos filhos, outros pedem de menos; num caso há sufoco e compensação
exigida, noutro há afecto contido e timidez. Em ambos, perde-se a alegria
simples da família.
Deste quadro Russell passa ao tema da natalidade,
defendendo que exortações morais e propaganda patriótica falham. As pessoas têm
filhos porque acreditam que isso aumentará a sua felicidade, ou porque não
sabem como evitá-los. Se a civilização tornar a parentalidade um caminho
previsível de desgaste, a natalidade cairá inevitavelmente. A única resposta
eficaz, diz ele, é recuperar a capacidade da parentalidade produzir felicidade.
A seguir, propõe a sua tese positiva: fora das
circunstâncias modernas adversas, a parentalidade é psicologicamente capaz de
proporcionar uma felicidade profunda e duradoura. Dá-lhe uma dimensão de
continuidade, sentir-se parte do fluxo da vida para lá do próprio fim, o que
combate a sensação de futilidade, sobretudo depois da juventude. Para quem não
tem obra pública duradoura, os filhos são a forma principal de tocar esse
horizonte futuro.
Russell sublinha a especificidade do afecto
parental: é um tipo de afecto diferente do conjugal, com raízes biológicas
observáveis também nos animais. O seu valor para a criança está na fiabilidade,
os pais tendem a permanecer quando amigos e amantes se afastam, especialmente
em fracasso, doença ou desgraça.
Mas a grande questão prática do capítulo é o
conflito entre ternura e poder. A parentalidade mistura protecção com impulso
de domínio. E é aqui que Russell coloca o critério decisivo para uma família
feliz no mundo moderno: respeito profundo pela personalidade da criança,
sentido não como técnica, mas como convicção íntima, capaz de purificar o amor
de qualquer tendência tirânica. Quando o pai ou a mãe desejam genuinamente o
bem da criança mais do que a sua própria autoridade, evitam espontaneamente
muitos erros, não precisam de manuais para cada gesto, e não entram na espiral
de insegurança que tanto desorienta as crianças.
Por fim, Russell critica a ideia de que uma boa
mãe deve fazer tudo sozinha. Defende uma divisão mais racional, e mais
profissional, do cuidado infantil. Há tarefas que especialistas podem fazer
melhor, e insistir em que a mãe carregue tudo conduz frequentemente a
frustração, e a uma maternidade emocionalmente agarradora. Quando a sociedade
exige sacrifícios excessivos, a mãe tende a cobrar compensações excessivas aos
filhos. Por isso, em nome do bem da criança e da liberdade da mulher, Russell
propõe que a maternidade não corte a mãe de interesses, trabalho e vocação. O
futuro, sugere, passa por um papel materno menos escravizante, mais semelhante
ao do pai tradicional, e por tirar partido do conhecimento científico acumulado
sobre o cuidado do corpo e da mente das crianças.
14 - O
trabalho
Russell abre com uma ambivalência: o trabalho
pode ser fonte de felicidade ou de infelicidade. Há trabalho penoso e o excesso
destrói o bem-estar. Ainda assim, desde que não seja excessivo, até o trabalho
mais monótono costuma ser menos doloroso do que a ociosidade.
Primeiro benefício: o trabalho protege do tédio.
Ocupa horas do dia sem exigir decisões constantes sobre o que fazer. Para a
maioria, escolher como preencher o tempo livre é difícil e cansativo; além
disso, a escolha traz frequentemente arrependimento, a sensação de que outra
opção teria sido melhor. Por isso, muita gente rica, livre de obrigações, paga
a liberdade com aborrecimento profundo, compensando com “sensações”
esporádicas. O trabalho, quando não esgota, torna também as férias mais
saborosas, porque o descanso ganha contraste.
Segundo benefício: o trabalho dá oportunidades de
sucesso, ambição e continuidade. Numa sociedade capitalista, o sucesso mede-se
muitas vezes pelo rendimento, e esse desejo não é apenas conforto material, é
também reconhecimento. Mesmo trabalho pouco interessante torna-se suportável
quando alimenta reputação e progresso. Para Russell, a continuidade de
propósito é um dos ingredientes mais importantes da felicidade a longo prazo, e
para muitos ela vem sobretudo do trabalho. Aqui faz uma observação crítica sobre
o trabalho doméstico: para muitas mulheres, por ser invisível, sem “medida”
clara de progresso e sem remuneração, oferece menos satisfação estruturante do
que o trabalho pago oferece a homens, e a mulheres com carreira.
Depois, Russell passa do trabalho como “antídoto
do vazio” para o trabalho como prazer genuíno. Diz que dois elementos tornam o
trabalho interessante.
O primeiro é a habilidade, a alegria de
exercer competência e melhorar. O impulso começa na infância e mantém-se na
vida adulta. Profissões como a advocacia e a política incluem esta dimensão,
com o prazer adicional de superar um adversário capaz. Mesmo sem competição, há
satisfação em executar bem algo difícil, seja cirurgia, acrobacias aéreas, ou
trabalhos técnicos. O interesse desaparece quando a habilidade se torna rotina
e deixa de haver melhoria ou variação.
O segundo elemento, superior, é a construção,
criar algo que permanece. Russell opõe construção a destruição: construir leva
de um estado inicial disperso para um resultado orientado por propósito;
destruir faz o inverso, desfaz um propósito existente e termina num estado sem
forma. Reconhece que há um prazer feroz na destruição, mas é menos profundo,
porque o resultado não oferece contemplação duradoura nem continuidade. A
construção, pelo contrário, tende a abrir caminho para novos projectos e
sucessos sucessivos. Sugere ainda que trabalho construtivo importante pode ser
um antídoto contra o hábito do ódio.
No topo desta escala está a satisfação maciça de
um grande empreendimento construtivo, desde obras materiais e organizações, até
a criação política de ordem, e, de forma exemplar, arte e ciência. A obra dá autoestima
sólida, influência sobre o pensamento dos outros, e uma fonte de sentido.
Contudo, Russell nota uma exceção: grandes artistas podem ser profundamente
infelizes, por temperamento, embora o trabalho os torne menos infelizes. Os
cientistas, diz ele, tendem mais frequentemente a ser felizes e a retirar a
felicidade primariamente do trabalho.
Russell inclui depois uma crítica social: muitos
intelectuais, sobretudo os de talento literário, acabam a vender a sua
habilidade a corporações e a produzir o que consideram “nonsense” nocivo. Essa
dissociação destrói o autorrespeito e conduz ao cinismo, que acaba por
envenenar a capacidade de desfrutar de qualquer coisa. Sem autorrespeito, a
felicidade genuína torna-se quase impossível. Daí o conselho: quando for
viável, é melhor escolher trabalho menos pago, mas alinhado com impulsos
construtivos, do que trabalho bem pago que envergonha.
Por fim, alarga a ideia de construção: não é
privilégio exclusivo de génios. Qualquer pessoa que seja “mestre” do que faz,
ou que veja utilidade no seu trabalho e nele aplique habilidade, pode ter esta
satisfação. E inclui explicitamente a educação de bons filhos como uma obra
construtiva difícil e profundamente gratificante.
O capítulo fecha com uma ideia de carácter: há
pessoas que vivem a vida como um todo, com direcção e unidade, e outras que a
vivem como episódios soltos. As primeiras têm maior probabilidade de
felicidade, porque constroem, passo a passo, condições de contentamento e autorrespeito.
A capacidade de ver a vida como um conjunto, com propósito consistente, é parte
da sabedoria e da moralidade, e deveria ser cultivada na educação. O propósito
consistente não basta para a felicidade, mas é quase indispensável, e encarna
sobretudo no trabalho.
15 - Os interesses
impessoais
Russell distingue os interesses centrais, aqueles
em torno dos quais a vida se constrói, de interesses menores e “impessoais”,
que ocupam o lazer e aliviam a tensão das preocupações principais. Para o homem
comum, a vida séria gira em torno de família, trabalho e dinheiro, por vezes
até os afectos paralelos são vividos mais pelo impacto que podem ter no lar do
que por si mesmos. O “impessoal” aqui não é frio, é aquilo que está fora do
circuito da responsabilidade directa.
A tese de base é simples: uma fonte frequente de
fadiga, ansiedade e tensão nervosa é a incapacidade de se interessar por algo
que não tenha utilidade prática imediata. Quando só há um pequeno conjunto de
assuntos “importantes”, todos carregados de preocupação, a mente consciente
nunca descansa. Falta o pousio mental em que o pensamento mais lento,
subterrâneo, consegue amadurecer. O resultado é excitabilidade, irritação,
falta de sagacidade e perda de senso de proporção. E forma-se um círculo
vicioso: quanto mais cansado, menos interesses exteriores, quanto menos
interesses, menos descanso, e assim até ao colapso.
Russell explica porquê: o que descansa nos
interesses externos é que não exigem acção. Decidir, escolher, exercer vontade,
sobretudo com pressa, é muito fatigante. Daí o valor de “dormir sobre” decisões
importantes, mas também a ideia de que o trabalho do subconsciente não acontece
só no sono, pode acontecer enquanto a atenção consciente está ocupada noutro
tema. Quem consegue esquecer o trabalho ao fim do dia costuma trabalhar melhor
do que quem rumina continuamente. Ter interesses fora do trabalho facilita essa
“mudança de carril”, desde que esses interesses não usem as mesmas faculdades
já gastas. Devem evitar vontade e decisão rápida, evitar risco financeiro,
evitar excitação emocional que gere nova fadiga e mantenha o subconsciente
preso ao mesmo nó.
Daqui passa a exemplos de lazer saudável: ver
jogos, teatro, golfe, leitura não ligada à profissão. Nenhuma preocupação, por
mais séria, deveria ocupar todas as horas acordadas.
Surge depois uma comparação entre homens e
mulheres, vista pelos olhos da época de Russell: ele diz que, em geral, os
homens esquecem o trabalho com mais facilidade e as mulheres tendem a manter o
pensamento preso ao que é prático, mesmo quando trabalham fora de casa.
Interpreta isso como uma espécie de “conscienciosidade” que, a longo prazo, não
melhora a qualidade do trabalho e pode estreitar o horizonte, abrindo caminho
ao fanatismo. É um ponto descritivo e polémico no texto, mas serve para
reforçar a ideia central: sem áreas mentais livres de utilidade e obrigação, a vida
estreita-se e endurece.
Depois, Russell alarga o valor dos interesses
impessoais para além do descanso. Eles ajudam a preservar o senso de proporção.
É fácil ficar absorvido no próprio projecto, no próprio meio, no próprio tempo
de vida, esquecendo quão pequeno isso é no conjunto da actividade humana e do
mundo. Para Russell, esse alargamento não é mero luxo intelectual, é um bem em
si. Ignorar oportunidades de conhecer o mundo é como ir ao teatro e não ouvir a
peça. A realidade é vasta, estranha, trágica, cómica, heroica e bizarra, e
interessar-se por ela é um dos privilégios da vida.
Esse senso de proporção é também um antídoto
contra o temperamento fanático. O fanatismo nasce de fixar um ou dois bens
desejáveis e esquecer todo o resto, aceitando danos colaterais como
irrelevantes. Russell dá um exemplo político: numa disputa, pode parecer
eficiente recorrer a métodos que aumentam ódio e violência, como insultar uma
nação estrangeira. Se a visão for curta e a “eficiência” for o único critério,
tais meios tornam-se tentadores. Se, pelo contrário, a mente estiver habituada
a pensar em longos horizontes, no lento emergir da civilização e na escala do
tempo, a vitória momentânea deixa de justificar uma regressão moral. E mesmo a
derrota fica mais suportável, porque é vista como momentânea.
Daqui ele passa para uma ambição educativa:
substituir a velha religião ortodoxa, que já não mobiliza os jovens, por uma
espécie de “religião dos factos”, uma consciência viva do passado humano, da
vastidão do cosmos, da pequenez da vida individual e, simultaneamente, da
grandeza possível da mente humana, já que nela se concentra aquilo que
conhecemos como valioso no universo. Evoca Spinoza e a ideia de libertação do
medo. A mente “com janelas abertas”, batida pelos ventos do universo, ganha uma
alegria profunda, menos sujeita às pequenas misérias e aos receios do destino.
Voltando ao plano prático, Russell sublinha outro
benefício decisivo: os interesses impessoais são um recurso em tempos de crise.
Quase todos enfrentam conflitos conjugais, doenças de filhos, stress
financeiro, risco de fracasso profissional. Nesses momentos, quando não há nada
a fazer de imediato, é sábio desviar a mente para canais distantes da
ansiedade, seja xadrez, policiais, astronomia popular, arqueologia. Isso não é
fuga degradante, é manutenção de capacidade. O erro é deixar a preocupação
ocupar tudo, tornando a pessoa menos apta a agir bem quando chega a hora.
O mesmo raciocínio aplica-se a dores
irreparáveis, como a morte de alguém amado. O luto é inevitável, mas Russell
rejeita a “sentimentalidade” de tentar extrair o máximo de miséria. A resposta
saudável não é destruir o pensamento com álcool ou drogas, isso ele considera
degradante, é redireccioná-lo para outras vias. Para isso, é preciso ter
cultivado antes uma largura de interesses, de modo a haver “lugares mentais”
não contaminados pela perda.
O capítulo fecha com uma ideia de vitalidade: ser
derrotado por uma perda não é prova admirável de sensibilidade, é sinal de
falha de energia vital. Como tudo o que amamos está à mercê da morte, não
convém viver com uma intensidade tão estreita que um acidente destrua todo o
sentido. Quem procura a felicidade com prudência deve ter interesses
subsidiários, para além dos centrais, que mantenham a vida respirável e
flexível.
16 - Esforço e
resignação
Russell começa por recuperar a ideia do “justo
meio”, que lhe parecia pouco heroica na juventude, mas que considera verdadeira
em muitas matérias. Uma delas é a relação entre esforço e resignação: há
pregadores do esforço, há pregadores da resignação, e ambos tocam uma parte da
verdade, mas falham quando a transformam em absoluto.
Defende primeiro o esforço. Para Russell, a
felicidade raramente “cai no colo” como fruto maduro. Num mundo cheio de males
evitáveis e inevitáveis, doença, pobreza, conflitos, e enredos psicológicos,
ser feliz é, para a maioria, conquista e não dádiva. Existem excepções, pessoas
com temperamento fácil, boa saúde, fortuna herdada e gostos simples, mas são
casos raros. Para a maioria, a felicidade exige esforço externo e interno,
embora aqui ele foque o externo: trabalhar para viver, ganhar autonomia, criar
condições materiais e sociais mínimas, e perseguir objectivos que dêem sentido
e sensação de sucesso.
Ele passa por domínios onde o esforço é
incontornável. O trabalho é óbvio para quem precisa de rendimento. A ambição,
muito comum no Ocidente, acrescenta um requisito: não basta sobreviver, é
preciso sentir-se bem-sucedido, e num mundo competitivo a medida do sucesso é
muitas vezes o dinheiro, o que já exige alguma resignação, porque o êxito
conspícuo é inevitavelmente para poucos. Em matéria de casamento e família,
Russell descreve como a necessidade de esforço varia com circunstâncias
demográficas, e sublinha o esforço exigido pela criação de filhos, sobretudo
quando se leva a sério higiene, medicina, alimentação e cuidados concretos,
contrapondo isso a espiritualismos que desprezam o “material” e pagam o preço
em mortalidade infantil.
Neste ponto, generaliza: a maioria das pessoas
tem, de forma natural, algum desejo de poder, entendido como capacidade de agir
no mundo, influenciar acções, pensamentos, emoções, ambiente, aliviar
sofrimento. Não é, para ele, um vício necessariamente, é parte do equipamento
de quem se importa com os outros. E esse desejo, quando não é deformado,
implica esforço. Russell critica o exotismo de ocidentais que flertam com uma
suposta “sabedoria da resignação oriental” precisamente quando, diz ele, o
Oriente a abandona.
Depois vira a moeda: a resignação também é
essencial na conquista da felicidade. O homem sábio não se senta perante males
evitáveis, mas também não desperdiça tempo e emoção em males inevitáveis. E
mesmo quando algo é evitável em teoria, pode não valer a pena evitá-lo se o
custo em energia e tempo prejudicar objectivos mais importantes. Muitas pessoas
entram em agitação por qualquer pequeno contratempo e aí gastam energia que
poderia ser usada para fins reais. Até em objectivos importantes, não convém uma
ligação emocional tão intensa que a possibilidade de fracasso envenene
continuamente a paz de espírito. A atitude correcta, segundo Russell, é fazer o
melhor possível e deixar o resultado à sorte.
Distingue então duas resignações. Uma nasce do
desespero, é má: é o render-se de quem desistiu de qualquer realização séria,
por vezes mascarando a derrota com frases religiosas ou com a tese de que
“contemplar” é o fim do homem, ficando inútil e infeliz. A outra nasce de
esperança inconquistável, é boa: uma esperança ampla e impessoal. Como as
esperanças puramente pessoais podem ser derrotadas por doença, morte, inimigos
ou erro, a saída é ligar os projectos individuais a um horizonte maior,
ciência, reforma, progresso humano. Assim, a falha pessoal não se transforma em
derrota absoluta. O cientista que quer o avanço da ciência e não apenas a sua
glória, e o reformador que se interessa pelo futuro da humanidade mesmo que não
veja a vitória em vida, sofrem, mas não colapsam.
A seguir, Russell aplica esta lógica ao
quotidiano. Muitas frustrações são subsidiárias e não deveriam sequestrar a
vida inteira: a infelicidade conjugal, quando existe um trabalho realmente
absorvente, pode ser tratada como um dia de chuva, incómodo, mas não como
matéria para dramatização contínua. Ele descreve o perfil de quem explode com
atrasos, refeições mal feitas, chaminés a fumar ou roupas que não aparecem, e
afirma que essa fúria é puro desperdício de energia. O sábio repara e corrige
quando pode, mas fá-lo sem emoção corrosiva. A preocupação constante, a
irritação e o frete não servem qualquer propósito e, para certas pessoas, só
uma resignação mais profunda, ancorada em fins grandes e impessoais, consegue
curar um temperamento cronicamente irritadiço.
Daqui surge um conjunto de técnicas mentais,
quase cómicas, para relativizar contratempos: analogias estranhas, paralelos
históricos, recordar a insignificância cósmica de um atacador que parte, ou
transformar o aborrecimento repetido de um conhecido numa contagem de “placar”.
Ele observa que todos mantemos uma autoimagem e irritamo-nos quando algo a
estraga. O “remédio” é ter uma galeria de autoimagens, escolher a mais adequada
ao incidente, e não viver sempre como herói trágico. Idealmente, seria melhor esquecer
o papel e esquecer-se de si, mas se a teatralidade é inevitável, que seja
variada e com tacto.
No final, Russell combate um medo comum: o de que
humor e resignação destruam a energia do trabalho e a determinação para vencer.
Ele acha esse medo errado. Trabalho valioso pode ser feito sem autoengano sobre
a sua importância ou facilidade. Quem só trabalha sustentado por mitos e
inflação do ego, diz ele, arrisca-se a fazer trabalho nocivo. Melhor parar do
que fazer dano, até porque metade do trabalho útil é combater trabalho
prejudicial. Aprender a encarar factos, inclusive factos sobre nós mesmos, não
é tempo perdido. Há uma resignação envolvida em aceitar a verdade pessoal, no
início dói, mas depois protege contra desilusões. E conclui com uma ideia
forte: nada é tão fatigante, nem tão exasperante a longo prazo, como o esforço
diário de acreditar em coisas que se tornam diariamente mais incríveis.
Libertar-se desse esforço é condição indispensável para uma felicidade estável
e duradoura.
17 - O homem
feliz
Russell fecha o livro com uma tese simples: a
felicidade depende em parte das circunstâncias externas e em parte de nós, e
aqui interessou-lhe sobretudo o que depende de nós. Rejeita a ideia, comum em
vários intelectuais, de que a felicidade exige um credo religioso, ou que a
infelicidade nasce de causas sofisticadas e altamente intelectualizadas. Para
ele, essas crenças são mais sintomas do que causas: o infeliz tende a adoptar
um credo infeliz, o feliz tende a adoptar um credo feliz, e ambos confundem causa
com consequência.
O que é indispensável para a felicidade da
maioria é elementar: alimento e abrigo, saúde, amor, trabalho bem-sucedido e o
respeito do “seu grupo”. Para alguns, também a parentalidade. Quando isto
falta, só o homem excepcional consegue ser feliz; quando existe, ou é
alcançável com esforço bem orientado, a persistência da infelicidade costuma
sinalizar desajuste psicológico, por vezes grave o bastante para exigir
psiquiatria, mas frequentemente curável pelo próprio, se agir do modo certo.
O ponto decisivo é a direcção das paixões e
interesses. Quando estão voltados para fora, a felicidade torna-se possível;
quando se voltam para dentro, formam uma prisão. Russell enumera as paixões autocentradas
que mais encarceram o indivíduo: medo, inveja, sentido de pecado, autopiedade e
autoadmiração. Em todas, não há interesse genuíno no mundo, há preocupação em
não ser ferido por ele, ou em alimentarmos o ego. O medo, em particular, leva a
esconder factos com mitos reconfortantes, mas esses mitos rasgam-se, e quem se
habituou ao seu “calor” sofre mais com a realidade, além de viver sempre
ansioso de que algum acontecimento force o reconhecimento do que evitava ver.
Como sair do círculo vicioso da auto absorção?
Russell diz que não se sai a pensar obsessivamente nas causas da infelicidade,
porque isso reforça a auto centralidade. A saída tem de vir por interesses
genuínos, não por interesses simulados como remédio. Ainda assim, se o
diagnóstico for correcto, há trabalho possível.
Se o problema for o sentido de pecado, a pessoa
pode convencer a mente consciente de que não há motivo para se sentir culpada
e, com técnicas discutidas antes no livro, “plantar” essa convicção no
inconsciente, enquanto se ocupa com actividades neutras. Dissipado o sentimento
de culpa, interesses objectivos tendem a nascer espontaneamente. Se o problema
for autopiedade, o método é semelhante, começando por reconhecer que as
próprias circunstâncias não são tão excepcionalmente trágicas quanto a emoção
sugere. Se o problema for medo, Russell propõe treino de coragem, não apenas
física, mas moral e intelectual. Um exemplo que dá é disciplinar-se a aceitar
diariamente pelo menos uma verdade dolorosa, e treinar a ideia de que a vida
continuaria a valer a pena mesmo sem a nossa presença, o que reduz a
dependência do ego como centro do universo. Com o tempo, esse treino permite
admitir factos sem estremecer, libertando-nos do domínio do medo em muitas
áreas.
Quanto aos interesses objectivos que devem
substituir a fixação no eu, Russell recusa prescrições artificiais. Não vale
dizer “seria feliz se me interessasse por selos” e forçar um hobby. Só o que
interessa de verdade funciona, mas ele confia que os interesses autênticos
surgem quando a pessoa deixa de estar submersa em si mesma.
A conclusão moral é provocadora: a vida feliz
coincide, em grande medida, com a vida boa. Russell critica os moralistas
profissionais por insistirem demasiado na abnegação consciente. Para ele, a
auto negação consciente mantém o indivíduo auto absorvido e consciente do que
sacrificou, e por isso falha tanto no objectivo imediato como no propósito
final. O que resulta é uma orientação natural para fora, que leva
espontaneamente aos mesmos actos que a moralidade rígida só conseguiria por
esforço de vontade. Russell assume-se hedonista, no sentido em que trata a
felicidade como bem, mas nota que, na prática, as recomendações do hedonista e
do moralista sensato convergem; a diferença está no foco do moralista, que
privilegia o acto em vez do estado de espírito. O mesmo acto tem efeitos
diferentes conforme o motivo interno: salvar uma criança por impulso de ajuda
não corrompe o carácter; fazê-lo para “ser virtuoso” pode, paradoxalmente,
piorar-nos, por reforçar a autoencenação moral.
Também relativiza a fórmula “o amor deve ser
altruísta”. Deve não ser egoísta em excesso, mas tem de ligar a nossa
felicidade ao sucesso do amor, caso contrário torna-se uma caricatura de auto
mortificação. Quando existe interesse genuíno por pessoas e coisas fora de nós,
a oposição entre “eu” e “mundo” perde sentido: o indivíduo sente-se parte do
fluxo da vida, não uma esfera dura isolada. Para Russell, toda a infelicidade
envolve alguma desintegração: ou divisão interna, falta de coordenação entre
consciente e inconsciente, ou falta de integração com o mundo, por ausência de
afectos e interesses objectivos.
O homem feliz é, então, o que não sofre dessas
rupturas: não está dividido por dentro nem em guerra com o mundo. Sente-se
cidadão do universo, aprecia o espectáculo da vida e as suas alegrias, e não é
atormentado pela morte porque não se vive como entidade separada, vive-se como
parte de uma continuidade que prossegue. É nessa união instintiva com o “rio”
da vida que Russell coloca a alegria mais profunda.
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