Uma síntese da obra “A Conquista da Felicidade” de Bertrand Russell (1930)

 

Primeira Parte – As Causas da Infelicidade

1 - O que torna as pessoas infelizes?

Russell inicia a obra com uma constatação simples e perturbadora. Ao contrário dos animais, que tendem a ser felizes quando têm saúde e alimento, os seres humanos, sobretudo nas sociedades modernas, vivem maioritariamente infelizes. Essa infelicidade não é excepcional nem marginal, é difusa, quotidiana e visível nos rostos e comportamentos das pessoas.

Através de observações quase etnográficas da vida urbana moderna, Russell descreve diferentes formas de infelicidade conforme os contextos sociais. No trabalho, predominam a ansiedade, a tensão constante, a incapacidade de brincar, a obsessão com a luta económica e a indiferença em relação aos outros. No lazer de fim de semana, mesmo entre pessoas confortavelmente ricas, encontra-se frustração, tédio e irritação, mascarados por uma perseguição mecânica do prazer que não chega a sê-lo. Nas diversões noturnas, a alegria surge como uma obrigação forçada, sustentada por álcool e contactos físicos desprovidos de afeto, que acabam por libertar sentimentos de culpa e autodesprezo, em vez de felicidade genuína.

Russell sublinha que estas formas de infelicidade têm causas mistas. Derivam tanto do sistema social como da psicologia individual, sendo esta última, em grande medida, moldada pelo próprio sistema. Ainda assim, recusa fazer neste livro uma análise estrutural das grandes reformas sociais necessárias, como a abolição da guerra, da exploração económica ou da educação baseada no medo. Não porque as considere irrelevantes, mas porque entende que nenhuma transformação social profunda será possível enquanto os indivíduos estiverem tão infelizes que a própria vida lhes pareça insuportável.

O foco da obra passa, assim, para o plano individual. Russell dirige-se a pessoas que não sofrem de miséria extrema, assumindo condições mínimas de saúde, rendimento e estabilidade. O seu objetivo é tratar a infelicidade banal e persistente do quotidiano moderno, precisamente aquela que se torna mais angustiante por não ter uma causa externa clara e parecer inevitável.

Segundo Russell, essa infelicidade resulta sobretudo de conceções erradas sobre o mundo, de éticas distorcidas e de hábitos de vida que destroem o entusiasmo natural pela existência. A felicidade depende, em última instância, dessa vitalidade elementar que pode ser preservada ou recuperada por mudanças que estão, em larga medida, ao alcance do indivíduo.

Para introduzir a sua perspetiva, Russell recorre à autobiografia. Descreve uma infância e juventude marcadas por tédio, melancolia profunda e ideação suicida, mitigada apenas pelo interesse intelectual, em particular pela matemática. A sua felicidade posterior não resulta de uma transformação súbita, mas de um processo gradual. Por um lado, aprendeu a identificar desejos realizáveis e a abandonar ambições impossíveis, como a obtenção de certezas absolutas. Por outro, e de forma decisiva, reduziu progressivamente a sua obsessão consigo próprio.

Educado num ambiente puritano, Russell vivia concentrado nas suas falhas morais e limitações pessoais. A libertação ocorreu quando deslocou o centro da sua atenção para fora de si, para o mundo, para o conhecimento e para as pessoas que amava. Reconhece que os interesses externos trazem riscos de sofrimento, como a guerra, a perda ou a frustração intelectual, mas considera que esses sofrimentos não corroem a própria estrutura da vida, ao contrário do autodesprezo constante. Além disso, os interesses externos geram atividade e envolvimento, funcionando como antídotos naturais contra o tédio.

O interesse obsessivo por si próprio, pelo contrário, é estéril. Pode conduzir à introspeção excessiva, à análise psicológica interminável ou ao isolamento espiritual, mas não produz felicidade. Em casos extremos de autoabsorção, Russell defende que apenas uma disciplina externa rigorosa pode ajudar, não por ser moralmente superior, mas por forçar o esquecimento de si mesmo através da ação contínua.

O capítulo termina com uma análise psicológica mais geral da infelicidade. O homem infeliz típico é alguém que, privado de satisfações normais na juventude, passa a sobrevalorizar um único tipo de satisfação e a organizar toda a vida em torno da sua obtenção, sacrificando o processo ao resultado. Num estágio ainda mais grave, comum na modernidade, algumas pessoas desistem de procurar satisfação e passam a procurar apenas distração ou esquecimento. O culto do prazer, nestes casos, é uma forma de anestesia. A embriaguez, em particular, surge como uma espécie de suicídio temporário, não trazendo felicidade positiva, mas apenas a suspensão momentânea da dor.

Russell distingue estas pessoas dos narcisistas ou megalómanos, que ainda acreditam na possibilidade de felicidade, ainda que por vias erradas. Quem procura apenas a intoxicação perdeu, antes de mais, a esperança. A primeira tarefa, nesses casos, é convencer o indivíduo de que a felicidade é desejável. Russell rejeita a ideia de que a maioria das pessoas escolha deliberadamente ser infeliz. Acredita que, se lhes for mostrado um caminho plausível para a felicidade, a maior parte o preferirá.

É com essa convicção, prudente, mas otimista, que Russell encerra o capítulo e prepara o terreno para a análise sistemática das causas psicológicas da infelicidade que se seguirá.

 

2 - A infelicidade byroniana

Neste capítulo, Russell analisa uma forma específica e muito característica de infelicidade moderna. Trata-se da infelicidade cultivada como sinal de lucidez, profundidade intelectual ou superioridade moral. É a atitude de quem acredita que, depois de “ver através” das ilusões do passado, percebeu que não há nada que valha verdadeiramente a pena viver. Esses indivíduos são genuinamente infelizes, mas orgulham-se da sua infelicidade, atribuindo-a à própria natureza do universo e considerando-a a única posição racional para um espírito esclarecido.

Russell rejeita frontalmente a ideia de que a infelicidade seja um sinal de maior racionalidade. Reconhece que pode haver uma compensação mínima no sentimento de superioridade intelectual, mas considera-a claramente insuficiente para substituir os prazeres simples da vida. Para ele, a razão não impõe qualquer proibição à felicidade. Pelo contrário, o homem sábio será tão feliz quanto as circunstâncias o permitirem e, se a contemplação do universo se tornar excessivamente dolorosa, deve simplesmente voltar a atenção para outra coisa.

Russell propõe uma inversão do diagnóstico habitual. Não é uma visão lúcida e trágica do mundo que gera infelicidade, é a infelicidade prévia, muitas vezes inconsciente, que leva certas pessoas a fixarem-se obsessivamente nos aspetos mais sombrios da existência e a construírem depois uma justificação filosófica para esse estado de espírito. Distingue claramente entre o humor ou disposição emocional e a sua expressão intelectual. Um estado de espírito não se combate com argumentos. Pode desaparecer por ação, por necessidade prática ou por alterações físicas, mas não por raciocínio abstrato.

A partir daqui, Russell revisita o pessimismo clássico do Eclesiastes, mostrando que os seus argumentos não têm força lógica suficiente para sustentar o desespero. A ideia de que “não há nada de novo sob o sol”, de que tudo passa e se repete, de que o esforço humano acaba sempre por beneficiar outros, só conduz ao pessimismo se se assumir previamente que a própria experiência presente é destituída de valor. O erro central consiste em viver permanentemente orientado para o futuro, como se o sentido do presente residisse apenas no que dele resultará. Para Russell, não há valor no todo se não houver valor nas partes. A vida não é um drama que se justifica por um desfecho compensatório, cada geração vive o seu dia, e isso, por si só, não constitui uma tragédia.

Russell argumenta ainda que a impermanência não é motivo de desespero, mas condição da frescura da experiência. Se a vida fosse infinita, os seus prazeres acabariam inevitavelmente por perder o sabor. A atitude serena perante o declínio e a morte é tão racional quanto a indignação trágica. Se os estados de espírito fossem decididos pela razão, haveria tantas razões para a alegria como para o desespero.

A análise estende-se depois ao pessimismo contemporâneo, representado por críticos culturais que lamentam a perda das antigas certezas religiosas e morais. Russell sustenta que o pessimismo de uma época raramente tem causas metafísicas profundas. Surge, quase sempre, em contextos de instabilidade social, guerra, empobrecimento ou perda de estatuto das classes intelectuais. Dá como exemplo a Idade Média tardia, profundamente pessimista apesar da fé religiosa generalizada, para demonstrar que a crença metafísica não protege, por si só, contra o desespero.

Um dos pontos centrais do capítulo é a crítica à nostalgia em relação ao amor romântico vitoriano. Russell rejeita a ideia de que o desencanto moderno com o amor seja prova de uma lucidez superior. Considera que a idealização vitoriana do amor estava profundamente ligada ao tabu sexual, o que levou à sacralização exagerada de certas formas de relação. O desencanto contemporâneo resulta muitas vezes de um conflito interno entre padrões antigos ainda ativos no inconsciente e a rejeição consciente desses mesmos padrões. O problema não está na perda das ilusões do passado, mas na ausência de uma ética racional que permita integrar o novo enquadramento.

Russell defende uma conceção do amor como fonte direta de prazer, como intensificador das melhores experiências da vida e como força que rompe o isolamento do ego. O amor, enquanto forma de cooperação humana, revela valores inacessíveis a filosofias solitárias que colocam o bem supremo na autossuficiência, no poder ou no prazer individual. Embora reconheça que o amor intenso não seja universal, insiste que o seu valor não é afetado pelo cepticismo, apenas pela incapacidade de o viver.

O capítulo aborda ainda a questão da tragédia na arte. Russell concorda que a tragédia moderna não pode repetir os moldes aristocráticos do passado, mas vê nisso um progresso, não um empobrecimento. A perda da tragédia centrada em príncipes e heróis individuais reflete uma convicção democrática mais profunda, segundo a qual nenhuma vida possui um valor cósmico superior às outras. A tragédia contemporânea deve, por isso, centrar-se na comunidade e não no indivíduo isolado.

Russell conclui com uma crítica severa aos círculos literários fechados, desligados da vida real da comunidade, que alimentam sentimentos de esterilidade, futilidade e desespero. A infelicidade byroniana nasce frequentemente desse isolamento emocional e social. A sua provocação final é dirigida aos jovens intelectuais que sentem que não há nada que valha a pena fazer. A esses, Russell recomenda menos introspeção e mais vida concreta, mais ação, mais contacto com necessidades reais. Só assim, acredita, a escrita, a reflexão e até a felicidade poderão recuperar sentido.

Este capítulo consolida uma tese central da obra. O pessimismo orgulhoso e cultivado não é sinal de profundidade, mas sintoma de uma vida empobrecida em ação, relação e envolvimento com o mundo.

 

3 - O espírito de competição

Russell começa por notar que muitos homens de negócios, sobretudo na América e no meio empresarial inglês, dizem que o que mais estraga a sua vida é a “luta pela sobrevivência”. Mas essa expressão, embora dita com sinceridade, é enganadora. Na esmagadora maioria dos casos, não está em causa a sobrevivência no sentido literal, como fome ou abrigo. O que existe é outra coisa: a luta pelo sucesso, isto é, pela superioridade social, pelo brilho perante os outros, pelo medo de parecer inferior, medíocre ou falhado.

O problema, diz Russell, é que muitos vivem como se estivessem presos a um mecanismo inevitável, quando na verdade permanecem numa passadeira rolante que não os eleva, apenas os esgota. Homens que já poderiam viver com conforto continuam a trabalhar de forma obsessiva, como se desistir fosse uma vergonha moral, uma espécie de deserção. Contudo, se lhes perguntarmos que causa pública serve essa dedicação, rapidamente esgotam os lugares-comuns. A competição tornou-se uma religião e o sucesso, um dever.

Russell descreve então, com ironia amarga, o quotidiano do executivo bem-sucedido. Acorda cedo, sai antes da família, passa o dia a representar o papel de decisor infalível, vive entre telefonemas, ditados, almoços estratégicos, mercado e negócios. Regressa exausto e é empurrado para deveres sociais que impedem qualquer intimidade real. O resultado é uma vida com a psicologia de uma corrida de cem metros, aplicada a uma maratona cujo único fim é o túmulo. A concentração e a tensão, úteis num sprint, tornam-se destrutivas quando prolongadas por décadas.

A consequência humana é a aridez. Este homem pouco conhece os filhos, pouco conhece a esposa, não tem amigos de verdade, não vê o mundo com atenção, não lê, despreza música e arte como futilidades. Os ritmos da natureza existem apenas enquanto afetam o mercado. Mesmo quando viaja, fá-lo aborrecido, preso mentalmente ao escritório. A família, por seu lado, interpreta o seu vazio como “filistinismo”, sem perceber que ele é também um produto das suas expectativas e do culto social da riqueza. Russell compara-o, provocatoriamente, à viúva hindu que aceita o ritual de autoimolação por dever religioso e prestígio. Também o homem de negócios sofre “voluntariamente” porque a sua cultura lhe ensinou que isso é nobre.

Daí a tese central do capítulo: para que este tipo de homem seja mais feliz, tem primeiro de mudar de religião, isto é, mudar a crença de fundo que identifica virtude e valor humano com acumulação e vitória competitiva. Enquanto acreditar que o dever de um homem é perseguir o sucesso e que recusar essa corrida é ser inferior, a vida permanecerá ansiosa e estreita.

Russell mostra como esta mentalidade invade até áreas onde não faz sentido. O dinheiro, por exemplo, deveria servir para garantir segurança e lazer. Mas o “homem moderno” quer dinheiro para obter ainda mais dinheiro, visando ostentação e ascensão numa escala social instável. E como, sobretudo na América, a riqueza funciona como medida de inteligência, o medo de perder dinheiro transforma-se num medo de parecer estúpido, um estado semelhante ao stress de um exame. Russell admite que, nalguns casos, há também um medo real ligado a experiências de pobreza na infância, mas considera-o um fator secundário.

Ele não nega que algum sucesso e dinheiro aumentem a felicidade até certo ponto. O que critica é transformar o sucesso no ingrediente principal, comprado ao preço de sacrificar quase tudo o resto. A raiz disto está, segundo Russell, na filosofia social dominante. Na Europa, mesmo existindo competição, há outras formas de prestígio. Exército, aristocracia, ciência, profissões liberais, tudo isto cria padrões em que o respeito pode ser dado à excelência e não apenas ao rendimento. Na América, pelo contrário, o dinheiro torna-se o critério mais visível e universal de mérito, contaminando também os profissionais, os professores e a própria educação. Desde cedo, os jovens aprendem que só importa aquilo que tem valor pecuniário.

Esta cultura produz um efeito paradoxal. O homem atinge o sucesso, mas não aprendeu a desfrutá-lo. Sem treino para prazeres mais delicados, não sabe o que fazer com o tempo livre. A “vitória” deixa-o entediado e inquieto, porque o propósito da vida foi definido como competir, não como viver. Mesmo atividades como ler podem virar uma competição social: lê-se para poder dizer que se leu, segue-se a moda mensal dos clubes de livros, mas evita-se o contacto com obras exigentes e duradouras. A cultura torna-se mediana e instrumental.

Russell liga isto a um declínio mais amplo de padrões civilizados. Prazeres quietos e restauradores desaparecem, como a arte da conversa, o gosto literário comum ou a capacidade de observar a natureza. Ele dá um exemplo simbólico. Caminhando com estudantes por um bosque cheio de flores silvestres, nenhum sabia o nome de uma única flor. Para quê, se não aumenta o rendimento?

O problema, insiste, não é apenas individual. É coletivo. A sociedade inteira transmite a ideia de que a vida é um concurso e que o respeito cabe ao vencedor. Isso hipertrofia a vontade e empobrece os sentidos e o intelecto. Russell sugere até que o puritanismo, ao longo de gerações, pode ter produzido pessoas com vontade sobre desenvolvida e apetites culturais atrofiados, tornando a competição uma filosofia “adequada” ao seu temperamento.

A metáfora final é dura e famosa. Estes vencedores são “dinossauros modernos”, preferem poder a inteligência e tornam-se modelo a imitar. Mas, como os dinossauros, estão biologicamente condenados. Vivem com tão pouca alegria que acabam por não desejar filhos, tornam-se estéreis no sentido literal e no sentido existencial. A competição como eixo da vida é demasiado tensa, demasiado muscular, demasiado hostil ao descanso. Por isso, só pode durar uma ou duas gerações antes de produzir fadiga nervosa, fugas por prazeres igualmente tensos, necessidade de aceleração constante e, no limite, colapso.

A conclusão é clara. A filosofia da competição envenena não só o trabalho, mas também o lazer. O remédio passa por reabilitar o valor do prazer calmo, do desfrute sensato e do descanso restaurador, integrando-os como partes legítimas de um ideal de vida equilibrado.

 

4 - O aborrecimento e a agitação

Russell defende que o tédio é uma força psicológica e histórica subestimada, mas decisiva no comportamento humano. Considera-o uma emoção tipicamente humana, porque implica comparação imaginativa entre o presente e um cenário alternativo mais desejável, além de exigir que as faculdades não estejam plenamente ocupadas. Situações perigosas ou absorventes podem ser desagradáveis, mas não são entediantes. Por isso, o oposto do tédio não é o prazer, é a excitação, isto é, a sensação de que “acontece algo” que distingue um dia do outro.

A partir daqui, Russell apresenta a tese central do capítulo. O desejo de excitação é profundo, especialmente nos homens, e foi historicamente mais fácil de satisfazer em estágios como a caça, a guerra e certos jogos de risco. Com a agricultura e a vida sedentária, a monotonia cresceu, embora a aristocracia tenha mantido, por mais tempo, formas de vida mais próximas da excitação. Ainda assim, Russell contraria o senso comum do seu tempo ao sustentar que a era das máquinas reduziu, e não aumentou, a soma global de tédio. Em comparação com o passado, há menos isolamento, menos longos serões vazios, mais oportunidades de entretenimento e de sociabilidade urbana.

Ele ilustra a monotonia antiga com exemplos da vida doméstica e rural. O “tempo feliz em família” da pequena burguesia era muitas vezes uma prisão, o pai adormecia, a mãe trabalhava, as filhas desesperavam, sem liberdade para ler, sair ou imaginar outra vida. E, indo mais longe no tempo, descreve o inverno medieval como uma fábrica de tédio, analfabetismo, frio, isolamento, noites longas, ausência de deslocação e de novidade. Russell sugere até que práticas brutais, como as caças às bruxas, podem ter sido alimentadas também por essa necessidade desesperada de quebrar a monotonia.

Apesar de vivermos hoje com menos tédio do que os nossos antepassados, temos mais medo dele. A modernidade ensinou-nos a acreditar que o tédio é evitável, desde que se persiga excitação com energia suficiente. Daí a corrida contemporânea para a cidade, a mobilidade constante, o cinema, a rádio, a vida social acelerada e a expectativa de estímulo permanente. À medida que se sobe na escala social, essa perseguição torna-se mais intensa. Paradoxalmente, quem tem dinheiro e tempo livre, e, portanto, maior capacidade de escolher, torna-se por vezes o mais vulnerável ao tédio, porque tenta erradicá-lo por completo.

Russell introduz então uma distinção crucial. Existem dois tipos de tédio. Um pode ser frutífero, outro pode ser estupidificante. O tédio estupidificante nasce da ausência de atividades vitais e do hábito de viver anestesiado por estímulos externos. O tédio frutífero surge, por assim dizer, quando não estamos sob o efeito de “drogas”, entendidas em sentido amplo, substâncias, mas também hábitos de excitação constante. O ponto é simples. Uma vida demasiado excitante exige doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito, como uma dependência. Isso conduz à exaustão, à perda de paladar para prazeres mais profundos e à substituição do que é orgânico por titilações, da sabedoria por esperteza, da beleza por choques rápidos.

A conclusão prática é que alguma capacidade de suportar tédio é essencial para uma vida feliz. Russell vai mais longe. A incapacidade de tolerar o tédio é moralmente perigosa, porque, na sua visão, pelo menos metade dos pecados humanos nasce do medo de não ter nada a acontecer. Guerras, perseguições, pogroms, brigas, vícios, muitas vezes são formas de fuga ao vazio.

Russell reforça a ideia com um argumento cultural. Grandes livros têm partes aborrecidas, e grandes vidas têm longos trechos monótonos. A grandeza requer persistência, trabalho e continuidade, coisas incompatíveis com a exigência de entretenimento incessante. As figuras de grande realização não viveram em permanente excitação. Pelo contrário, viveram em ritmos relativamente quietos, com momentos altos raros e com muita continuidade. Sem monotonia relativa, não há obra duradoura.

Daí a crítica à educação moderna. Russell acusa os pais de fornecerem demasiadas distrações passivas às crianças, espetáculos, guloseimas, variedade constante, e de não perceberem o valor de ter dias semelhantes, com raras exceções. O excesso de estímulo ensina o cérebro a exigir sempre “mais”, e torna a criança incapaz de suportar a monotonia frutífera que é necessária para formar objetivos construtivos de longo prazo. Uma geração que não tolera tédio, diz ele, será uma geração de “homens pequenos”, desligados dos ritmos lentos da natureza, com impulsos vitais a secar lentamente.

Aqui o capítulo muda de registo e ganha uma dimensão quase ecológica. Russell afirma que somos criaturas da Terra e que a vida humana precisa de algum contacto com o ritmo natural, lento, cíclico, com estações, repouso, continuidade. Sem isso, a vida urbana torna-se “quente, poeirenta e sedenta”, como uma peregrinação no deserto. Ele usa um exemplo marcante. Uma criança pequena, levada pela primeira vez para o campo no inverno, encontra alegria intensa em se ajoelhar na lama e encostar o rosto à relva. Esse contentamento, primitivo e massivo, revela uma necessidade orgânica profunda. Quando essa necessidade é sistematicamente frustrada, a pessoa raramente permanece totalmente sã.

Russell contrapõe prazeres que não criam esse contacto, como o jogo, que deixam um vazio imediato, um sabor de poeira e insatisfação, a prazeres que nos “reenraízam” na vida da Terra, que podem ser menos intensos no momento, mas deixam uma felicidade que permanece. Ele estende esta ideia a formas mais elevadas. A poesia lírica de Shakespeare, quando celebra aves, areia, mar, transporta para linguagem civilizada a mesma alegria visceral do corpo em contacto com a natureza. E aplica o mesmo contraste ao amor. Amor, para Russell, é renovação orgânica, refrescamento do ser, como chuva depois da seca. Sexo sem amor é apenas descarga e, quando passa, pode deixar fadiga, desgosto e sensação de vazio.

No fecho, Russell regressa ao paradoxo moderno. O tédio mais insuportável das populações urbanas ricas nasce, em parte, da sua separação da vida da Terra e, em parte, do próprio pânico perante o tédio. Ao fugirem do tédio frutífero, caem no tédio estupidificante, porque tornam-se incapazes de quietude. E a tese final é a mais importante do capítulo. Uma vida feliz tem de ser, em grande medida, uma vida quieta, pois só num ambiente de quietude pode existir a alegria verdadeira.

 

5 - A fadiga

Russell distingue, logo de início, vários tipos de fadiga e sublinha que nem todos são inimigos da felicidade. A fadiga física moderada pode até favorecer uma vida melhor, promove sono profundo, apetite e dá sabor ao descanso. O problema surge quando o esforço físico é excessivo, caso em que se transforma em tortura, historicamente visível no desgaste precoce de mulheres camponesas e no sobre trabalho infantil da industrialização inicial, ainda presente, segundo ele, em alguns contextos do seu tempo.

Nas sociedades mais avançadas, porém, Russell considera que a grande ameaça já não é tanto a fadiga corporal, é a fadiga nervosa. E paradoxalmente ela afeta mais os bem instalados, empresários e trabalhadores intelectuais, do que muitos assalariados. A vida urbana moderna cria um ambiente continuamente desgastante, ruído constante que obriga a um esforço subconsciente para “não ouvir”, contacto permanente com estranhos que exige inibir o instinto de avaliar cada desconhecido como potencial amigo ou ameaça, pressa, transportes, irritação difusa, dispepsia. Chega-se ao trabalho já com os nervos gastos e uma predisposição para ver os outros como incómodos.

Russell descreve uma cadeia de tensão social. O empregado vive sob medo de despedimento, o patrão vive sob medo de falência. Mesmo quando o sucesso chega, muitas vezes chega tarde, quando o homem já está viciado em ansiedade, incapaz de desligar. E até os filhos de ricos, que poderiam escapar, tendem a fabricar ansiedades equivalentes, através de apostas, excessos e privação de sono, acabando igualmente incapazes de alegria. O resultado é um padrão generalizado, as pessoas estão demasiado cansadas para desfrutar da vida sem recorrer ao álcool.

A partir daqui, Russell desloca o problema para a mente. Em muitos casos, diz ele, a fadiga nervosa nasce menos do trabalho em si e mais da preocupação, e a preocupação é amplificada por falta de disciplina mental. A maioria das pessoas não sabe parar de pensar no que as angustia quando não pode agir. Leva as preocupações para a cama, rumina-as de noite num estilo quase delirante, acorda com o julgamento turvo, o temperamento estragado e intolerância a qualquer obstáculo. O homem sábio, pelo contrário, pensa nos problemas apenas quando isso serve um propósito. Decide quando tem dados suficientes, não revisita a decisão sem novos factos e evita a exaustão estéril da indecisão.

Russell sugere também um reequilíbrio de escala. Muitas ansiedades diminuem quando se reconhece que a questão não é tão importante quanto o ego supõe. Dá o exemplo pessoal do medo de falar em público. Enquanto tratava cada discurso como um evento decisivo, sofria e falava pior; quando interiorizou que pouco mudava no universo se falasse bem ou mal, o medo caiu e, ironicamente, o desempenho melhorou. A ideia central é que a autocentralidade amplifica tudo, e que a atenção orientada para algo maior do que o próprio ego cria uma paz inacessível ao egocentrismo.

Russell critica a forma como a psicologia e a “ciência industrial” estudaram a fadiga, concentrando-se em medidas de fadiga muscular ou escolar e ignorando o essencial. Para ele, o tipo decisivo de fadiga moderna é emocional. A fadiga intelectual pura, como cálculos ou trabalho mental sem carga afetiva, resolve-se naturalmente no sono. O que causa “esgotamentos” não é o excesso de trabalho em si, é a carga emocional, preocupação, medo, conflito, que impede o descanso. Um sinal típico de colapso nervoso é a crença de que o próprio trabalho é “indispensável” e que não se pode tirar férias. Russell chega a afirmar que, se fosse médico, receitaria férias a qualquer pessoa que considerasse o seu trabalho extremamente importante, porque esse estado mental costuma ser sintoma de fuga. Em muitos casos, o indivíduo agarra-se ao trabalho para evitar pensar numa desgraça emocional subjacente.

Ele aprofunda então a psicologia do medo. As técnicas de disciplina mental ajudam, mas não chegam quando o problema vive no inconsciente. Russell defende que é possível “plantar” uma convicção racional no inconsciente através de intensidade e repetição, usando um método semelhante ao que diz empregar na escrita. Concentrar-se intensamente numa questão durante algum tempo e depois, por assim dizer, mandar o trabalho prosseguir “no subterrâneo”. Aplica esta lógica ao medo e à preocupação, o método proposto é enfrentar deliberadamente o pior cenário possível, olhar para ele sem evasivas e depois construir razões sólidas para concluir que, mesmo assim, não seria uma catástrofe absoluta, até porque nada do que nos acontece tem importância cósmica. Repetido o processo, a preocupação diminui de forma surpreendente e pode ser substituída por uma sensação de libertação.

A ideia-chave é que o medo piora quando evitado. A técnica comum de distrair-se, trabalhar mais, divertir-se, tentar não pensar, só aumenta o poder do “espectro”, porque é uma forma de reconhecer a sua terribilidade. O remédio é o confronto racional e calmo, mas intenso, até que a familiaridade torne o medo aborrecido. Quando isso acontece, o tema perde a atração mórbida e a mente afasta-se dele por desinteresse, não por esforço.

Russell acrescenta uma crítica social e moral. A cultura valoriza a coragem física, sobretudo na guerra, mas desvaloriza outras coragens, em particular a coragem de enfrentar a opinião pública, de assumir autonomia interior, de lidar com ameaças íntimas e mentais. As mulheres, segundo ele, são até desincentivadas a mostrar coragem, e os homens são punidos socialmente quando demonstram coragem fora do modelo guerreiro. Se a sociedade admirasse todas as formas de coragem como admira a coragem física, haveria menos medo, menos preocupação e, logo, menos fadiga nervosa.

O capítulo termina ligando a fadiga nervosa ao tema do tédio e da excitação. Muitos procuram prazer intenso para compensar o vazio e o cansaço do trabalho, mas esses prazeres são frequentemente os mais desgastantes para os nervos. O apetite exagerado por excitação é sinal de insatisfação ou distorção. Russell sugere, de forma crítica, que certas normas morais e sociais, por exemplo a dificuldade cultural e económica de casar cedo, empurram os jovens para hábitos de excitação que mais tarde podem inviabilizar a capacidade de felicidade serena e até de um casamento feliz. Como o indivíduo não controla leis e instituições, o conselho prático é racionar essas excitações, não deixar que destruam a saúde nem a capacidade para prazeres mais gentis.

Por fim, Russell descreve um efeito particularmente destrutivo da fadiga nervosa. Ela funciona como um filtro entre a pessoa e o mundo. As impressões chegam amortecidas, os outros são notados apenas para irritar, o sol e a comida deixam de dar prazer, e a mente estreita-se em torno de poucos objetos obsessivos. Assim torna-se impossível descansar, e o cansaço cresce até exigir tratamento médico. Russell volta então ao fio do capítulo anterior, esta é, em última instância, a penalização por se ter perdido o contacto com a Terra e com um modo de vida mais orgânico, embora reconheça que preservar esse contacto em grandes aglomerações urbanas levanta questões sociais mais vastas que ele não pretende tratar aqui.

 

6 - A inveja

Russell apresenta a inveja como uma das causas mais poderosas da infelicidade, a par da preocupação. É uma paixão universal e precoce, visível em crianças muito pequenas, razão pela qual a educação infantil exige, segundo ele, uma justiça distributiva rigorosa, pois a mínima perceção de favorecimento é imediatamente sentida e ressentida. O que muda na idade adulta não é a presença da inveja, é a sua expressão, torna-se mais disfarçada, mas não menos comum.

Ele mostra como a inveja atravessa classes e contextos, desde pequenos episódios domésticos até estruturas políticas. Vai ao ponto de afirmar que a inveja é uma força motriz central da democracia real, não da teoria idealizada da democracia. Russell diz aceitar que existem boas razões filosóficas para preferir a democracia, mas insiste que grandes mudanças políticas raramente são movidas por teorias puras, as teorias servem de cobertura para paixões, e no caso democrático a paixão dominante teria sido, historicamente, a inveja, o ressentimento contra quem ocupa o lugar “primeiro”.

No plano social, Russell descreve manifestações de inveja particularmente marcantes em certos comportamentos coletivos. Nas mulheres, segundo o retrato que traça, a inveja aparece como malevolência rápida perante outras mulheres vistas como rivais, traduzindo-se em olhares hostis, inferências depreciativas e gosto pelo escândalo. A moralidade punitiva também desempenha um papel semelhante, castiga-se a “pecadora” não apenas por virtude, mas porque se inveja a liberdade que se imagina nela. Nos homens, a inveja tende a ser mais localizada, dirigida sobretudo a pares dentro da mesma profissão, e revela-se quando se elogia um rival a alguém do mesmo meio, artista com artista, político com político, especialista com especialista, produzindo explosões de ciúme. A anedota sobre Leibniz e Huyghens a “lamentarem” com deleite a suposta loucura de Newton serve para expor a hipocrisia invejosa mesmo entre grandes espíritos.

A tese de Russell é dura. A inveja é talvez o traço mais infeliz da natureza humana, porque tem dois efeitos simultâneos. Leva a desejar o mal alheio e, quando possível, a infligi-lo, e ao mesmo tempo tortura quem a sente, pois transforma os bens próprios em fonte de desagrado e os bens alheios em veneno interior. A inveja pode ainda tornar-se inimiga da excelência, porque, quando domina a vida social, exige que as vantagens dos outros sejam cortadas, mesmo quando essas vantagens servem um bem público. Russell ilustra com perguntas típicas do ressentimento igualitarista mal orientado, por que razão o médico há de ter carro, o cientista há de trabalhar num quarto quente, o talentoso há de ser poupado a tarefas domésticas. A inveja não consegue responder de forma racional porque o seu impulso não é melhorar a vida do invejoso, é reduzir a vantagem do outro.

Apesar disso, Russell introduz uma força compensatória. Há também admiração. Se quisermos aumentar a felicidade humana, devemos aumentar a admiração e diminuir a inveja, isto é, reforçar a capacidade de apreciar a excelência alheia sem a traduzir automaticamente como humilhação própria.

Quanto à cura, Russell não é sentimental. A cura ideal seria a abnegação, mas nem os santos estão imunes à inveja. Para as pessoas comuns, a cura é a felicidade, o que cria um círculo vicioso, a inveja impede a felicidade e a felicidade dissolve a inveja. Russell responde que a vida real não é tão logicamente fechada, porque compreender as origens da inveja já é meio caminho para enfraquecê-la.

Ele aponta duas fontes importantes na infância. Primeiro, experiências de preferência entre irmãos, que formam um hábito permanente de procurar e imaginar injustiças, criando adultos que interpretam tudo como desprezo e acabam por tornar real, pelo comportamento, a crença de que “ninguém gosta deles”. Segundo, carência de afeto parental, que produz um sentimento de exclusão, um destino de “Ismael”, e um ressentimento estrutural. Algumas formas de felicidade são, para Russell, um direito de nascimento psicológico, e a sua privação tende a deformar o carácter.

A parte mais prática do capítulo concentra-se num alvo específico: o hábito de pensar por comparação. Russell considera esse hábito fatal. Quando algo bom acontece, deve ser vivido por si mesmo, sem convocar imediatamente a fantasia de que noutro lugar, noutro tempo, noutra pessoa, seria melhor. A inveja destrói a experiência presente, o dia de sol perde brilho, a música das aves vira ruído, o amor torna-se insuficiente porque existe sempre uma figura mítica ou socialmente superior com que comparar. O erro intelectual e moral está em não ver as coisas em si mesmas, mas apenas em relação a outras coisas.

O remédio aqui é disciplina mental. Recusar pensamentos inúteis, recusar comparações estéreis, concentrar-se em viver o que se tem, fazer o trabalho que se tem de fazer, e não alimentar cenários hipotéticos de fortuna alheia. Russell acrescenta uma ideia provocatória. O sucesso não elimina a inveja, porque haverá sempre alguém mais bem-sucedido, real ou imaginário. Até os grandes conquistadores, diz ele, invejaram antecessores ou heróis míticos. A saída não é subir na escala, é abandonar a escala como centro da vida interior.

Russell critica ainda a “modéstia” excessiva, que, em vez de virtude, pode ser um combustível de inveja. Quem se sente sempre menor precisa de validação constante, teme desafios e passa a ver os outros como ameaça. Ele prefere, para a educação, alguma forma de autoconfiança afirmativa, a metáfora do pavão é clara, cada pavão acredita ter a cauda mais bela e por isso vive sem inveja. Se fosse educado a não ter boa opinião de si mesmo, cairia em ressentimento moralista e em estratégias de destruição do outro, transformando a inveja em “virtude” punitiva. É assim que a inveja se mascara de moralidade e mata a excelência.

No plano social, Russell liga a inveja à competição e à mobilidade moderna. Em hierarquias fixas, a inveja tem um alcance mais limitado. Numa sociedade onde o estatuto é instável e onde a ideologia igualitarista torna as comparações universalmente disponíveis, a inveja expande-se. Ele admite que isso pode ser um preço de transição rumo a uma sociedade mais justa, mas alerta para um risco, a justiça motivada por inveja tende a ser a pior, aquela que busca reduzir o prazer dos afortunados em vez de aumentar o bem-estar dos desfavorecidos. Por isso, reformas justas deveriam ser movidas por forças melhores do que a inveja, sob pena de produzirem políticas vingativas e empobrecedoras.

Russell mostra ainda como os males se encadeiam. Fadiga alimenta inveja, quando alguém se sente inadequado e exausto, torna-se mais propenso a ressentir-se de quem parece ter uma vida mais leve. E muita inveja aparentemente profissional tem, para ele, uma raiz instintiva, frequentemente sexual. Uma vida afetiva e familiar satisfatória reduz drasticamente a inveja por riqueza ou estatuto, desde que haja o suficiente para uma vida digna. A felicidade instintiva, diz ele, é rara no mundo anglo-saxónico, especialmente entre mulheres, e a civilização teria aqui falhado. Sem correções, teme uma deriva para um ciclo de ódio.

O capítulo termina alargando o foco. A inveja moderna é amplificada pelos media e pela educação, que expõem as pessoas a comparações com classes e povos distantes. Propaganda funciona melhor quando excita ódio porque a alma moderna, insatisfeita, está mais predisposta a ressentimento do que a amizade. Russell usa a imagem melancólica dos símios no zoo, com um olhar triste, como se sentissem que “deveriam” ser outra coisa. Algo semelhante terá entrado no homem civilizado, pressente um bem possível quase ao alcance, mas não sabe como alcançá-lo, e então descarrega a frustração contra os outros, igualmente perdidos.

A conclusão é ambivalente. A inveja é um mal e causa estragos terríveis, mas também expressa uma dor humana real, quase heroica, de quem caminha às cegas numa noite de transição evolutiva. Para sair desse desespero, Russell propõe uma expansão moral paralela à expansão intelectual. É preciso alargar o coração, transcender o eu, e assim conquistar uma forma de liberdade mais vasta.

 

7 - O sentimento de culpa

Russell trata o “sentido de pecado” como uma das causas psicológicas mais profundas da infelicidade adulta. Começa por rejeitar a psicologia religiosa tradicional, sobretudo a protestante, que via a consciência como “voz de Deus” e distinguia entre remorso e arrependimento redentor. A modernidade, em parte por influência da psicanálise, mostrou que a consciência varia de cultura para cultura e tende a acompanhar os costumes do grupo, não uma verdade universal. Assim, o que acontece realmente quando a consciência acusa?

Russell observa que a “consciência” cobre realidades muito diferentes. A forma mais simples é o medo de ser descoberto e, por isso, punido ou envergonhado. O “infractor respeitável” consegue esquecer o que fez enquanto se sente seguro, mas quando a descoberta se aproxima surge um arrependimento intenso, que é mais medo do que ética. Há ainda o receio de ser excluído do grupo, de perder estatuto e pertença. Aqui, quem viola regras que aceita como legítimas sente-se esmagado quando perde a sua posição social, ao contrário do inovador religioso, do revolucionário ou do anarquista, que podem suportar o ódio do presente porque acreditam numa validação futura.

Mas o núcleo do capítulo vai mais fundo. O sentido de pecado mais importante não é social nem consciente, é inconsciente. Manifesta-se como culpa difusa, desconforto sem causa clara, admiração moral por uma santidade quase irrealizável e, sobretudo, uma vida inteira vivida com a sensação de que “o melhor não é para mim”, alternando impulsos normais com momentos de penitência melosa e inferioridade.

A origem, diz Russell, está quase sempre na moral ensinada antes dos seis anos, por mães e amas. Nessa idade, a criança aprende tabus e associações emocionais, não argumentos. Aprende que certas palavras são “más”, que álcool e tabaco são indignos, que mentir é sempre pecado, e acima de tudo que qualquer interesse nos órgãos sexuais é abominável. Como o amor e a aprovação da figura cuidadora são o maior bem da infância, a criança associa desaprovação a um terror vago e absoluto. Mais tarde esquece a fonte e as penalizações originais, mas mantém a sensação de ameaça, como se algo terrível “tivesse” de acontecer se infringir certas regras.

Russell critica a irracionalidade desse código infantil quando transportado para a vida adulta. Não há base racional para tratar o palavrão como indicador de vício moral. O mesmo vale para álcool e tabaco, com variações culturais e sem fundamento ético consistente. Por trás destes tabus, diz ele, há um ascetismo quase invisível, a ideia de que o santo não faz nada “só por prazer”. Russell opõe-lhe uma ética racional, onde dar prazer é bom, inclusive a si mesmo, desde que não exista dano compensatório para si ou para os outros.

Ele estende a crítica à mentira. Defende maior verdade como regra geral, mas recusa a absolutização. Conta o exemplo do raposo perseguido pela caça, quando mentiu aos caçadores para não facilitar a morte do animal. Para Russell, isto mostra que a moralidade racional não pode ser um conjunto de proibições cegas.

O ponto mais grave, contudo, é o sexo. A associação precoce entre sexo e pecado, reforçada por dinâmicas como o complexo de Édipo, torna-se muito difícil de desfazer. Daí derivam distorções comuns. Homens que veem o sexo como degradante e não respeitam a mulher se ela tiver prazer, o que produz casamentos frios e, depois, procura de satisfação fora do casamento, sempre envenenada por culpa. Do lado feminino, quando a “pureza” foi inculcada com força, surge medo do prazer e retração, embora Russell observe que, no seu tempo, este problema já era menos frequente nas mulheres educadas, e mais persistente nos homens.

Russell reconhece que há crescente consciência pública dos danos de uma educação sexual moralista na infância, e formula uma regra simples, não ensinar moral sexual antes da puberdade, não criar nojo de funções naturais, e quando chegar o tempo de instrução moral, fazê-lo com razões claras. Mas o foco do livro é o adulto, e a pergunta é como reduzir, agora, os efeitos dessa educação mal feita.

A resposta de Russell liga-se a um tema recorrente nos capítulos anteriores, fazer a razão penetrar no inconsciente. O sentido de pecado intensifica-se quando a vontade consciente enfraquece, fadiga, doença, álcool, e nesses momentos a pessoa tende a tratar a culpa como uma revelação do “eu superior”. Russell diz que isto é absurdo, a fraqueza não dá mais verdade do que a força. O padrão deveria ser o que o indivíduo acredita racionalmente quando está lúcido e vigoroso. E propõe uma técnica prática. Quando surgir remorso por algo que a razão não condena, deve-se examinar a origem do remorso e desmontar a sua absurdidade com detalhe, até que a convicção racional seja suficientemente viva para competir com a impressão emocional deixada pela infância. Nada de alternar entre lucidez e superstição, é preciso desafiar imediatamente os pensamentos irracionais, arrancá-los “pela raiz”, analisá-los e rejeitá-los.

Russell incentiva uma irreverência saudável perante a autoridade moral infantil, mães, amas, sacerdotes, e pergunta se o mundo é mesmo melhor por causa desse ensino. A moral tradicional, diz ele, gastou energia a vigiar perigos imaginários, enquanto ignorou os perigos morais reais, práticas desleais nos negócios, crueldade com subordinados, dureza com família, malevolência contra concorrentes, ferocidade política. Estes são os comportamentos que realmente espalham sofrimento e corroem a civilização, mas raramente são eles que acionam pesadelos e culpa infantil. A culpa está divorciada da razão porque o código moral da infância era uma coleção de tabus irracionais, sem relação séria com deveres para com a comunidade, e contaminada por um ascetismo mórbido.

Mesmo quando alguém viola o seu próprio código racional, Russell duvida que o “sentido de pecado” seja o melhor mecanismo de correção. Há nele algo de abjeto e sem autorrespeito. E sem autorrespeito não há melhoria. O homem racional observa os seus próprios atos indesejáveis como observa os dos outros, efeitos de circunstâncias e hábitos, e procura evitá-los por melhor compreensão ou por mudança das circunstâncias, não por autopunição humilhante.

Russell conclui que o sentido de pecado não promove a virtude, promove infelicidade, inferioridade e, por consequência, relações pessoais difíceis, exigências emocionais excessivas, rancor contra quem parece superior, facilidade em invejar e dificuldade em admirar. Em vez disso, a vida boa exige integração mental, harmonia entre camadas consciente, subconsciente e inconsciente, para que a pessoa não viva em guerra interior. A psicanálise tenta esse trabalho, mas Russell acredita que muitas pessoas o podem fazer sozinhas, desde que não caiam numa autoanálise que aumenta a autoabsorção. A integração saudável é orientada para fora.

Ele termina defendendo a razão contra a acusação de matar emoções. A função da razão não é fabricar emoção, é remover emoções que bloqueiam o bem-estar, como ódio, inveja e culpa supersticiosa. As emoções boas, amor, afeto parental, amizade, benevolência, devoção à ciência ou à arte, não são inimigas da razão. Pelo contrário, a racionalidade cria liberdade interior e energia para fins externos. Nada é mais aborrecido do que ficar fechado no eu, nada é mais vital do que ter a atenção dirigida para o mundo.

O sentido de pecado é, para Russell, um produto de uma moral demasiado autocentrada. Para quem nunca foi atingido por ela, a razão pode parecer supérflua. Para quem foi, a razão é o remédio. E o critério final de felicidade é claro. A felicidade que precisa de intoxicação é falsa e insatisfatória. A felicidade autêntica acompanha-se do exercício pleno das faculdades e de uma consciência plena do mundo.

 

8 - A mania da perseguição

Russell parte da forma clínica da mania de perseguição, como delírio de ser alvo de danos graves, mas interessa-se pelas versões moderadas, comuns em pessoas “normais”, e que são fonte frequente de infelicidade. O traço típico é a convicção persistente de ser vítima de ingratidão, hostilidade ou traição. Estas pessoas contam histórias plausíveis, conseguem simpatia rápida, e só mais tarde surgem dúvidas, não pelo detalhe de cada episódio, mas pelo número improvável de “vilões” que dizem encontrar. A dificuldade é que a doença piora tanto com a credulidade como com a descrença. Se acreditam nelas, aumentam e adornam o relato; se não acreditam, isso vira mais uma prova de que o mundo é cruel e injusto para com elas.

O objectivo do capítulo é dar ao leitor instrumentos de diagnóstico interno, porque é impossível ser feliz quando se vive a sentir que os outros nos maltratam.

Russell identifica uma raiz quotidiana desta tendência: a hipocrisia universal perante a maledicência. Quase todos dizem coisas desagradáveis sobre terceiros, mas ficam chocados quando descobrem que dizem o mesmo sobre eles. Esperamos dos outros a ternura e o respeito que reservamos para nós próprios, e esquecemos que não pensamos deles melhor do que eles pensam de nós. Se pudéssemos ler pensamentos, diz Russell, o primeiro efeito seria destruir muitas amizades; o segundo poderia ser benéfico, porque aprenderíamos a gostar uns dos outros sem exigir a ilusão de perfeição. Moral principal aqui: ninguém deve esperar ser perfeito, nem levar demasiado a sério o facto de não o ser.

Para Russell, a mania de perseguição assenta num exagero do próprio mérito. Quando alguém acredita ser claramente brilhante, por exemplo o dramaturgo que se considera o maior do seu tempo, mas não tem sucesso, tende a explicar o insucesso como conspiração de críticos, actores e gestores, e ainda por cima uma conspiração “honrosa”, porque ele não bajula, diz verdades duras, e por isso incomoda. O mesmo padrão aparece no inventor ignorado e no denunciante que descobre um escândalo real, mas generaliza a partir de uma experiência parcial e conclui que “os poderosos” vivem apenas para encobrir crimes. Aqui há alguma verdade, e por isso o erro torna-se mais obstinado. O problema é a desproporção, um caso pessoal passa a ser a chave do universo.

Há ainda um tipo diferente, o filantropo ou moralizador que faz “bem” contra a vontade dos outros e depois se surpreende com a falta de gratidão. Russell sugere que muitas vezes esse “bem” esconde motivos pouco admitidos: amor ao poder, vaidade, e até inveja, porque “fazer o bem” frequentemente significa tirar prazeres alheios, bebida, jogo, ócio, tabaco. Quando os visados não agradecem, o benfeitor sente-se mártir e reforça a narrativa de perseguição. Russell estende a mesma lógica ao político que concentra poder em nome de fins nobres e depois fica indignado quando o povo se volta contra ele, incapaz de reconhecer o prazer de mandar como parte do motor da sua acção.

Destas observações, Russell extrai quatro máximas preventivas, se forem interiorizadas a sério.

Primeira máxima, desconfia dos teus motivos, porque raramente são tão altruístas como parecem. Idealismo pode mascarar amor ao poder e vaidade. A moral convencional exige um altruísmo acima do que a natureza humana suporta, levando pessoas “virtuosas” a autoenganarem-se sobre a própria pureza, e esse autoengano abre caminho à sensação de injustiça e perseguição quando o mundo não responde com gratidão.

Segunda máxima, não sobrestimes os teus méritos, não apenas morais, mas também de talento e competência. O dramaturgo deve admitir a hipótese simples, as peças podem ser más. Existem casos de mérito não reconhecido, mas são menos frequentes do que casos de falta de mérito com pretensão. Russell propõe um teste prático para quem se sente génio ignorado. Produzes por compulsão interna de exprimir algo, ou sobretudo pela necessidade de aplauso? No artista genuíno o aplauso é secundário, no aspirante movido a aplauso, se este falha, talvez deva mudar de rumo. Em geral, se os outros não te avaliam como tu te avalias, não assumes automaticamente que há uma conspiração. Reconhecer limites dói, mas é uma dor finita, e abre de novo a possibilidade de uma vida feliz.

Terceira máxima, não esperes demasiado dos outros. Russell dá o exemplo do familiar doente que exige sacrifícios extremos. É crucial lembrar que cada pessoa vive a partir do seu próprio centro e não do teu. Não se deve exigir que alguém distorça a linha principal da sua vida por outro, a menos que o sacrifício seja espontâneo por afecto genuíno. Muitas queixas de “ingratidão” são, na verdade, reacções saudáveis ao egoísmo expansivo de quem exige demais.

Quarta máxima, lembra-te de que os outros pensam menos em ti do que tu pensas. O delirante imagina perseguição constante por pessoas ocupadas com a própria vida. O semi-delirante interpreta omissões banais como ataques, ou como elogios secretos, o jornal não publicou a tua foto porque te teme. Esta fantasia lisonjeia a vaidade, mas não dá felicidade sólida. Obriga a inventar hipóteses cada vez mais rebuscadas, gera tensão mental, e compra autoestima ao preço de te sentires em guerra com o mundo. Russell fecha com uma regra dura e libertadora: nenhuma satisfação baseada em autoengano é estável. Por desagradável que seja, é melhor encarar a verdade, habituar-se a ela, e construir a vida a partir daí.

 

9 - O medo da opinião pública

Russell começa com uma ideia simples e amarga: pouca gente consegue ser feliz se, no essencial, o seu modo de vida e a sua visão do mundo não forem aprovados por quem a rodeia, sobretudo por quem vive com ela. O problema agrava-se na modernidade porque as comunidades se fragmentaram em “conjuntos” sociais com morais e crenças incompatíveis. Assim, alguém pode ser tratado como perverso num meio e perfeitamente normal noutro. Muito sofrimento juvenil nasce daqui, porque o jovem tende a achar que o meio onde vive representa “o mundo”, e não imagina que, noutro círculo, as suas ideias seriam banais.

Essa pressão tem custos que vão além da dor. Dissipa energia, obriga a uma espécie de resistência permanente, e quase sempre produz timidez intelectual, a pessoa deixa de seguir as ideias até ao fim por medo do choque com o meio. Russell dá exemplos de isolamento mental extremo, as Brontë, Blake, e sublinha que poucos têm uma força interior suficiente para viver assim. Para a maioria, “ambiente simpático” é condição de felicidade, e é precisamente a minoria inteligente e criativa que mais sofre quando nasce em meios hostis à leitura, à arte, à diferença de carreira, à crítica religiosa ou política da família. Para esses, a adolescência é frequentemente um período sombrio, ao contrário dos pares mais conformados.

Quando chegam à universidade, muitos descobrem afinidades e respiram. Mas, na vida adulta, sobretudo se forem obrigados a viver em lugares pequenos e a manter “respeitabilidade” perante o público, por exemplo médico ou advogado, podem sentir-se compelidos a esconder gostos e convicções para sobreviver socialmente. Russell descreve uma solidão típica, pessoas que sabem por livros que há lugares onde não seriam solitárias, mas não conseguem viver lá, nem ter conversas afins com regularidade. Só os muito raros, feitos do material de Blake ou Emily Brontë, resistem sem dano.

Daqui, Russell tira duas linhas de resposta. A primeira é táctica, em muitos casos o problema piora por timidez desnecessária. A opinião pública é mais tirânica com quem mostra medo. Quem se afasta de pequenas convenções, roupa, igreja, livros, e o faz com leveza espontânea, sem pose desafiante, acaba muitas vezes tolerado, até ganha estatuto de “excêntrico licenciado”. O segredo, diz ele, é boa disposição e simpatia, porque os convencionais enfurecem-se quando sentem que a diferença os critica. Se percebem que não há desprezo, perdoam mais.

Mas esta táctica não serve a todos. Quem está em profunda dissonância com o seu meio tende a ficar irritável, defensivo, com atitude combativa, mesmo quando aparenta conformidade. Russell observa um fenómeno curioso, ao mudar de círculo, essas pessoas “mudam de carácter”. Onde eram retraídas e angulosas, ficam confiantes, sociáveis, leves. A conclusão prática é clara: sempre que possível, os jovens devem escolher carreira e contexto de vida que permitam companhia congenial, mesmo que isso custe rendimento. Muitas vezes nem sabem que podem fazer essa escolha, por desconhecimento do mundo; aqui, os mais velhos têm um papel valioso, abrir horizontes.

Russell critica ainda a leitura psicologizante, típica da moda psicanalítica, que vê “desajuste” como patologia. Nem sempre. Se os pais acham a evolução “maligna”, basta inteligência para haver conflito. Estar em desarmonia com um ambiente estúpido, preconceituoso ou cruel pode ser sinal de mérito, não de doença. O que importa é reduzir a hostilidade social, não esmagar a diferença.

A segunda linha é ética e estratégica no longo prazo. Russell defende que, fora a opinião especializada, se respeita demasiado a opinião alheia, tanto em assuntos grandes como pequenos. Deve respeitar-se a opinião pública apenas na medida necessária para não passar fome e não ir preso. O resto é submissão voluntária a uma tirania que estraga a felicidade. Dá um exemplo muito concreto, despesas feitas para impressionar vizinhos, carro, jantares, em vez de viagens ou biblioteca, mesmo quando esses seriam os prazeres genuínos. Não vale a pena “afrontar” deliberadamente a convenção, isso é continuar dominado por ela, só que ao contrário. O ideal é indiferença autêntica, que é força e fonte de alegria. Sociedades com pessoas naturais, sem uniformidade, são mais interessantes, porque cada um não é réplica do anterior.

Russell também nota uma mudança estrutural: com mobilidade e meios de transporte, a pessoa depende menos dos vizinhos imediatos e pode escolher companhia por afinidade, não por proximidade. Isso deveria reduzir a solidão dos não conformes, embora retire aos conformes um prazer sádico, ter os outros “à mercê”.

No fim, Russell adverte para um novo medo moderno, mais perigoso do que o do vizinho, o medo do que a imprensa pode dizer. Quando um jornal escolhe um bode expiatório, a vida do alvo pode tornar-se intolerável, algo comparável, no terror social, às perseguições antigas. Aqui Russell já não recomenda simplesmente desprezo individual. Defende que a linha legal terá de ser traçada com mais rigor do que pelos mecanismos de difamação existentes, proibindo o que destrói a vida de inocentes, mesmo que tenham dito ou feito coisas que, publicadas maliciosamente, os tornem impopulares.

Ainda assim, a cura última não é jurídica, é civilizacional: aumentar a tolerância do público. E o melhor motor da tolerância seria uma coisa quase subversiva, multiplicar o número de pessoas genuinamente felizes, porque quem está satisfeito tem menos necessidade de encontrar prazer em infligir dor aos outros.

 

Segunda Parte – As Causas da Felicidade

10 - A felicidade é ainda possível?

Russell muda o foco. Depois de dissecar o homem infeliz, passa ao homem feliz, e começa por recusar a tese, muito comum entre intelectuais, de que a felicidade se tornou impossível no mundo moderno. Diz que essa impressão se desfaz quando olha para dentro, quando viaja, e quando fala com pessoas “simples”, como o seu jardineiro. A felicidade existe, só não é distribuída segundo o mapa mental dos círculos literários.

Ele propõe duas espécies de felicidade, com gradações intermédias. Uma é acessível a qualquer pessoa, a outra exige alfabetização, cultura, vida mental mais complexa. A primeira aparece em figuras como o cavador de poços e o jardineiro. A alegria deles vem de vigor físico, trabalho suficiente, obstáculos reais, e uma luta contínua contra um inimigo concreto, os coelhos. A felicidade não depende de uma doutrina, nem de uma metafísica, nem de uma teoria política.

E Russell desmonta a objecção do leitor “superior”: não há nada de indigno nessa alegria. O que muda com a educação não é a estrutura emocional do prazer, é apenas o tipo de actividade que a desencadeia. Em vez de “coelhos”, pode ser um bacilo, um problema de engenharia, uma tese, uma máquina, uma causa, desde que exista um campo de acção com resistência suficiente para tornar o sucesso incerto, mas alcançável.

Daqui, Russell tira uma regra prática com sabor de psicologia: uma estimativa moderada das próprias capacidades é um motor de felicidade. Quem se subestima surpreende-se com sucessos, e isso dá alegria. Quem se sobrestima surpreende-se com falhas, e isso envenena.

Entre os instruídos, Russell afirma que, no seu tempo, os mais felizes são os homens de ciência. Não por serem mais virtuosos, mas porque reúnem condições quase perfeitas: trabalho absorvente, progresso visível, resultados reconhecidos como importantes por si e pelos outros, mesmo quando o público não entende nada.

Aqui ele contrapõe ciência e arte. Quando o público não entende um poema ou um quadro, conclui que a obra é má. Quando não entende a relatividade, conclui que ele próprio é que não chega lá. Resultado: o cientista é honrado, o artista é frequentemente esmagado pela indiferença ou pela suspeita. Para Russell, a infelicidade do artista é, em parte, estrutural: viver a ter de se afirmar contra a incredulidade da maioria é uma vida de fricção constante.

Russell diz algo provocador: o cinismo dos jovens muito educados no Ocidente nasce da combinação entre conforto e impotência. Impotência gera a sensação de que nada vale a pena, conforto torna essa sensação suportável, e assim o cinismo instala-se como postura. Em contraste, ele descreve a felicidade, ou pelo menos a vitalidade feliz, do reformador e do revolucionário, sobretudo onde há um mundo a construir e uma crença colectiva forte.

Nesta parte, ele idealiza o “jovem russo” do pós-Revolução, e sugere que, mesmo que a crença seja crua para o intelectual sofisticado, ela é “justificada” pragmaticamente se produzir energia, sentido e melhoria média da vida. Não está a dizer que é um paraíso, está a dizer que a sensação de agência e missão é um antídoto potente contra a esterilidade interior.

Ele alarga a ideia: não é só o grande cientista ou o líder político. Qualquer pessoa pode obter prazer profundo através de competência especializada, desde que não exija aplauso universal. Dá exemplos deliciosamente concretos: um homem sem uso das pernas que escreve cinco volumes sobre uma doença das roseiras, compositores tipográficos peritos em tipos difíceis, técnicos com orgulho no ofício.

E faz uma defesa do “mundo das máquinas”: a modernidade não mata necessariamente o artesanato, apenas o desloca. Há uma diferença entre trabalho qualificado e “vigiar máquinas” repetitivamente. Russell aposta num futuro em que o aborrecido seja cada vez mais feito por máquinas, libertando as pessoas para tarefas com variedade e iniciativa. Nesse horizonte, a vida laboral poderia ser menos tensa e menos deprimente do que na era agrícola, que ele descreve como longa submissão à monotonia, ao clima, ao isolamento.

Russell distingue ainda três camadas.

Primeiro, crença numa causa, não necessariamente grandiosa. Pode ser uma causa séria e terrena, e quando é genuína dá ocupação para o tempo livre e corta pela raiz a sensação de vazio.

Segundo, hobbies e coleccionismos. Podem ser uma fonte real de prazer, e ele recusa o snobismo que os chama infantis. No entanto, avisa: muitas vezes são sobretudo uma fuga a uma dor não encarada.

Terceiro, o núcleo da felicidade “fundamental”: o que ele chama um interesse amigável por pessoas e por coisas.

No caso das pessoas, ele contrasta duas formas de afecto. A possessiva, exigente, que precisa de resposta enfática e admiração, tende a produzir infelicidade. A amigável é curiosa, observadora, gosta das singularidades alheias, quer dar espaço aos interesses dos outros sem os controlar. Quem tem isto, quase sem esforço, torna-se bom companheiro, recebe reciprocidade, não se amarga com “ingratidões”, e até se diverte com manias que a outros irritariam.

No caso das coisas, ele fala de um interesse impessoal “amistoso”, como o do geólogo pelas rochas ou do historiador por um concílio. A ideia é libertadora: o mundo é vasto, e se a nossa felicidade ficar confinada ao que nos acontece pessoalmente, pedimos demais à vida, e acabamos a receber menos. O interesse impessoal, quando é genuíno, cria distância, serenidade e uma espécie de descanso mental que melhora a forma como regressamos aos problemas.

Russell termina com uma frase que funciona como lema:

Aumenta os teus interesses o máximo possível, e faz com que as tuas reacções ao que te interessa sejam, tanto quanto possível, amigáveis e não hostis.

 

11 – A vitalidade

Russell identifica o zest, isto é, a vitalidade, como o traço mais universal e distintivo das pessoas felizes. Para a explicar, começa com uma analogia simples, as diferentes atitudes perante uma refeição. Há quem coma por tédio, por dever, por exigência crítica excessiva ou por voracidade, e há quem coma com apetite saudável, desfrute e pare quando chega. O homem feliz corresponde a este último tipo. Tal como a fome em relação à comida, a vitalidade é a disposição básica em relação à vida.

Os outros tipos, o desencantado, o asceta, o voluptuoso e o fastidioso, tendem a desprezar quem vive com apetite pela vida normal, considerando-o vulgar. Russell rejeita frontalmente essa atitude. Para ele, o desencanto não é sabedoria, é uma doença. Gostar intensamente da vida não torna uma pessoa inferior; pelo contrário, fornece-lhe uma fonte adicional de prazer e torna-a melhor adaptada ao mundo. Quem se interessa por mais coisas tem mais oportunidades de felicidade e depende menos do acaso, porque pode sempre substituir uma perda por outro interesse.

A perda de vitalidade está ligada a uma viragem excessiva para dentro. Russell ilustra este fenómeno com a metáfora da máquina de salsichas que deixa de transformar porco em alimento porque decide estudar apenas o seu próprio mecanismo. A mente, diz ele, precisa de materiais vindos do mundo exterior. Sem interesse pelos acontecimentos, estes não se transformam em experiência. Quem se fixa apenas em si próprio encontra vazio; quem se volta para fora acumula matéria rica que, mesmo quando reflecte sobre si, encontra algo vivo para recombinar.

A vitalidade manifesta-se de múltiplas formas, na curiosidade intelectual, na observação das pessoas, na viagem vivida como descoberta e não como simples deslocação confortável, e na capacidade de retirar interesse até de experiências desagradáveis. Para quem possui vitalidade, mesmo um infortúnio pode ser integrado como conhecimento do mundo. Russell reconhece que a perda de saúde pode destruir esta disposição, mas observa que muitos a conservam quase até à morte.

A vitalidade pode ser geral ou altamente especializada. Um interesse muito específico pode salvar alguém do tédio ou da dor, como no exemplo do homem que aprende chinês para suportar a perda da mulher. No entanto, interesses demasiado estreitos constituem uma base menos sólida para a felicidade do que uma curiosidade ampla, pois não ocupam toda a vida e podem esgotar-se.

Russell distingue então a vitalidade saudável da voracidade excessiva. Retoma a virtude clássica da moderação. Uma paixão só contribui para a felicidade se couber no quadro geral da vida, respeitando a saúde, as relações afectivas, os deveres sociais e os meios de subsistência. Quando uma única paixão devora todas as outras, o resultado é o empobrecimento da vida, mesmo que essa paixão seja intelectual. O excesso revela muitas vezes uma tentativa de fugir a um mal-estar profundo. Há, contudo, diferenças importantes entre fugas destrutivas, como o álcool ou o jogo, e fugas que mobilizam capacidades valiosas, como o estudo ou a criação.

A vitalidade, afirma Russell, é natural nos seres humanos. As crianças interessam-se por tudo, os animais mantêm essa curiosidade enquanto têm saúde. A sua perda na vida civilizada deve-se em grande parte às restrições constantes da espontaneidade impostas pela organização social moderna, baseada em hábitos regulares e motivos indirectos. Essas restrições são inevitáveis, mas consomem energia e favorecem o tédio. Para preservar a vitalidade, é necessário ter saúde, energia excedente ou trabalho intrinsecamente interessante, bem como evitar conflitos psicológicos internos que desperdiçam força vital.

Russell aplica esta análise também à condição feminina. Durante muito tempo, uma ideia errada de respeitabilidade ensinou às mulheres a refrear vivacidade, curiosidade e interesse pelos outros, sobretudo pelos homens. O resultado foi frequentemente a perda de vitalidade, substituída por uma vigilância moral rígida e por uma hostilidade disfarçada. Trata-se, para Russell, de um sistema de repressão que mutila a alegria e empobrece o carácter. Não existe, em essência, uma excelência masculina e outra feminina distintas. Para ambos, a vitalidade é condição central da felicidade e do bem-estar.

O capítulo afirma, em suma, que a felicidade depende menos das circunstâncias externas do que da capacidade de manter um interesse vivo, equilibrado e generoso pelo mundo, apesar das restrições inevitáveis da vida civilizada.

 

12 - A afeição

Russell liga directamente a afeição à vitalidade. A perda de vitalidade nasce muitas vezes da sensação de não ser amado; inversamente, sentir-se amado é, para a maioria das pessoas, o mais poderoso reforço do interesse pela vida. Quem se sente não amado pode reagir de vários modos: tentar comprar afeição através de bondade ostensiva, cair na amargura e procurar vingança contra o mundo, ou afundar-se numa desesperança tímida que conduz ao autofechamento e à submissão à rotina, vista como forma de evitar um mundo percebido como frio e ameaçador.

O eixo central do capítulo é a ideia de segurança psicológica. A autoconfiança verdadeiramente útil, aquela que permite enfrentar riscos sem sucumbir ao medo, nasce sobretudo do hábito de ter recebido afeição suficiente e do tipo certo, em especial na infância. A criança que se sente amada aceita esse apoio como um dado natural e volta-se para fora, para o mundo e para a exploração. A criança a quem o afecto é retirado tende a tornar-se tímida, autocentrada e receosa, podendo desenvolver desde cedo uma inclinação para sistemas filosóficos ou teológicos rígidos. Russell sugere que, em muitos casos, a necessidade de impor ordem total ao universo é uma forma de medo, uma tentativa de substituir um mundo imprevisível por um mundo mentalmente controlável.

Nem todo o afecto, porém, gera coragem. O afecto que protege por medo, como o de uma mãe excessivamente ansiosa ou possessiva, pode produzir dependência e fragilidade, deixando a pessoa pior do que estaria se não fosse amada. Russell defende um afecto robusto, que deseja a excelência mais do que a simples segurança. A preocupação antecipatória com a desgraça deve ser mínima, porque o medo pelos outros é quase tão corrosivo como o medo por nós próprios e pode funcionar como disfarce da vontade de domínio.

Na idade adulta, o afecto recebido mantém a função de conferir segurança, mas adquire também uma dimensão biológica e existencial, ligada ao amor sexual e à possibilidade de parentalidade. A incapacidade de inspirar amor é vista como uma grave privação, por afastar a pessoa de uma das maiores fontes de alegria e por favorecer a introversão. Russell observa ainda que, em geral, as mulheres tenderiam a amar mais pelo carácter e os homens mais pela aparência, criticando implicitamente esta hierarquia de critérios.

Russell distingue então dois modos de afecto dado. Um é o afecto de quem navega em mar calmo e aprecia o outro pelo que ele é, um movimento voltado para fora, expansivo e admirativo. O outro é o afecto do náufrago, que ama como quem se agarra a uma bóia, por necessidade de segurança. Este segundo tipo é legítimo e frequente, mas é menos excelente, porque nasce do medo e tem um carácter mais instrumental. No melhor afecto, procura-se uma felicidade nova, não apenas a fuga a uma infelicidade antiga.

O ideal proposto é o afecto recíproco, vitalizante, em que ambos recebem com alegria e dão sem esforço, e em que essa reciprocidade torna o mundo mais interessante para ambos. Em contraste, Russell descreve relações assimétricas, em que uma pessoa absorve a vitalidade da outra, prospera à custa de sucessivas vítimas e utiliza os outros como meios, não como fins. Esta incapacidade de reciprocidade é associada a uma visão estreita da felicidade, frequentemente ligada à ambição, ao ressentimento e a um ego excessivamente fechado, que acaba por se tornar uma prisão.

Por fim, Russell critica os obstáculos psicológicos e sociais à reciprocidade afectiva. A prudência excessiva, tanto moral como mundana, desencoraja a generosidade e a aventura no amor, produzindo timidez, frustração e, por vezes, hostilidade contra a humanidade. Ele não idealiza a promiscuidade, reconhecendo que muitas relações sexuais carecem de afecto genuíno e podem mesmo envolver hostilidade; ainda assim, afirma que as únicas relações de verdadeiro valor são aquelas sem reticência, em que há entrega mútua e uma fusão numa espécie de personalidade comum. A cautela no amor, conclui Russell, é talvez a forma de cautela mais fatal para a felicidade.

 

13 - A família

Russell começa com um diagnóstico duro: a família é, entre as instituições herdadas, a mais desorganizada, e apesar de poder ser uma grande fonte de felicidade, torna-se frequentemente uma fonte de sofrimento para pais e filhos. O capítulo limita-se ao que o indivíduo pode fazer já, sem depender de reformas sociais, embora reconheça que boa parte do problema é económica e estrutural.

Aponta três blocos de causas modernas para a crise familiar.

Primeiro, mudanças económicas e sociais que tornaram a maternidade mais pesada, sobretudo nas classes profissionais. A abertura de carreiras às mulheres solteiras retirou à mulher instruída o incentivo antigo, e forçado, para casar; a vida de solteira pode agora ser confortável e autónoma, desde que não surja o desejo de ter filhos. Se esse desejo aparece, o casamento tende a implicar perda de trabalho e perda de independência económica, o que torna a maternidade menos atractiva. A isto soma-se a decadência do serviço doméstico, que, no quadro descrito por Russell, prende a mãe a tarefas pequenas e repetitivas, desgasta-lhe o espírito, empobrece a vida conjugal e cria ressentimento, tanto por sentir que sacrificou demasiado, como por exigir em troca mais do que é razoável.

Segundo, a urbanização e a dificuldade de habitação: a vida em apartamentos pequenos, sem espaço, torna a infância mais difícil, aumenta o cansaço dos pais e empurra a família para os subúrbios, o que, por sua vez, rouba tempo ao pai e enfraquece a presença familiar. Russell não desenvolve esta vertente porque a vê como matéria de política económica, mas usa-a para mostrar que a infelicidade familiar não é apenas psicológica.

Terceiro, a transformação psicológica associada à expansão da sensibilidade democrática. O modelo antigo, assente em autoridade e obediência, produzia prazeres unilaterais, pais satisfeitos e filhos frequentemente oprimidos. O modelo moderno procura relações satisfatórias para ambos, mas, em transição, gera hesitação e atrito. Pais já não se sentem seguros nos seus direitos, filhos já não sentem o dever de respeito automático. A psicanálise, na leitura de Russell, ainda agravou a ansiedade parental, porque introduziu um medo permanente de causar dano com qualquer gesto, com afecto a mais ou a menos, com disciplina a mais ou a menos. Resultado: uns pais pedem demasiado aos filhos, outros pedem de menos; num caso há sufoco e compensação exigida, noutro há afecto contido e timidez. Em ambos, perde-se a alegria simples da família.

Deste quadro Russell passa ao tema da natalidade, defendendo que exortações morais e propaganda patriótica falham. As pessoas têm filhos porque acreditam que isso aumentará a sua felicidade, ou porque não sabem como evitá-los. Se a civilização tornar a parentalidade um caminho previsível de desgaste, a natalidade cairá inevitavelmente. A única resposta eficaz, diz ele, é recuperar a capacidade da parentalidade produzir felicidade.

A seguir, propõe a sua tese positiva: fora das circunstâncias modernas adversas, a parentalidade é psicologicamente capaz de proporcionar uma felicidade profunda e duradoura. Dá-lhe uma dimensão de continuidade, sentir-se parte do fluxo da vida para lá do próprio fim, o que combate a sensação de futilidade, sobretudo depois da juventude. Para quem não tem obra pública duradoura, os filhos são a forma principal de tocar esse horizonte futuro.

Russell sublinha a especificidade do afecto parental: é um tipo de afecto diferente do conjugal, com raízes biológicas observáveis também nos animais. O seu valor para a criança está na fiabilidade, os pais tendem a permanecer quando amigos e amantes se afastam, especialmente em fracasso, doença ou desgraça.

Mas a grande questão prática do capítulo é o conflito entre ternura e poder. A parentalidade mistura protecção com impulso de domínio. E é aqui que Russell coloca o critério decisivo para uma família feliz no mundo moderno: respeito profundo pela personalidade da criança, sentido não como técnica, mas como convicção íntima, capaz de purificar o amor de qualquer tendência tirânica. Quando o pai ou a mãe desejam genuinamente o bem da criança mais do que a sua própria autoridade, evitam espontaneamente muitos erros, não precisam de manuais para cada gesto, e não entram na espiral de insegurança que tanto desorienta as crianças.

Por fim, Russell critica a ideia de que uma boa mãe deve fazer tudo sozinha. Defende uma divisão mais racional, e mais profissional, do cuidado infantil. Há tarefas que especialistas podem fazer melhor, e insistir em que a mãe carregue tudo conduz frequentemente a frustração, e a uma maternidade emocionalmente agarradora. Quando a sociedade exige sacrifícios excessivos, a mãe tende a cobrar compensações excessivas aos filhos. Por isso, em nome do bem da criança e da liberdade da mulher, Russell propõe que a maternidade não corte a mãe de interesses, trabalho e vocação. O futuro, sugere, passa por um papel materno menos escravizante, mais semelhante ao do pai tradicional, e por tirar partido do conhecimento científico acumulado sobre o cuidado do corpo e da mente das crianças.

 

14 - O trabalho

Russell abre com uma ambivalência: o trabalho pode ser fonte de felicidade ou de infelicidade. Há trabalho penoso e o excesso destrói o bem-estar. Ainda assim, desde que não seja excessivo, até o trabalho mais monótono costuma ser menos doloroso do que a ociosidade.

Primeiro benefício: o trabalho protege do tédio. Ocupa horas do dia sem exigir decisões constantes sobre o que fazer. Para a maioria, escolher como preencher o tempo livre é difícil e cansativo; além disso, a escolha traz frequentemente arrependimento, a sensação de que outra opção teria sido melhor. Por isso, muita gente rica, livre de obrigações, paga a liberdade com aborrecimento profundo, compensando com “sensações” esporádicas. O trabalho, quando não esgota, torna também as férias mais saborosas, porque o descanso ganha contraste.

Segundo benefício: o trabalho dá oportunidades de sucesso, ambição e continuidade. Numa sociedade capitalista, o sucesso mede-se muitas vezes pelo rendimento, e esse desejo não é apenas conforto material, é também reconhecimento. Mesmo trabalho pouco interessante torna-se suportável quando alimenta reputação e progresso. Para Russell, a continuidade de propósito é um dos ingredientes mais importantes da felicidade a longo prazo, e para muitos ela vem sobretudo do trabalho. Aqui faz uma observação crítica sobre o trabalho doméstico: para muitas mulheres, por ser invisível, sem “medida” clara de progresso e sem remuneração, oferece menos satisfação estruturante do que o trabalho pago oferece a homens, e a mulheres com carreira.

Depois, Russell passa do trabalho como “antídoto do vazio” para o trabalho como prazer genuíno. Diz que dois elementos tornam o trabalho interessante.

O primeiro é a habilidade, a alegria de exercer competência e melhorar. O impulso começa na infância e mantém-se na vida adulta. Profissões como a advocacia e a política incluem esta dimensão, com o prazer adicional de superar um adversário capaz. Mesmo sem competição, há satisfação em executar bem algo difícil, seja cirurgia, acrobacias aéreas, ou trabalhos técnicos. O interesse desaparece quando a habilidade se torna rotina e deixa de haver melhoria ou variação.

O segundo elemento, superior, é a construção, criar algo que permanece. Russell opõe construção a destruição: construir leva de um estado inicial disperso para um resultado orientado por propósito; destruir faz o inverso, desfaz um propósito existente e termina num estado sem forma. Reconhece que há um prazer feroz na destruição, mas é menos profundo, porque o resultado não oferece contemplação duradoura nem continuidade. A construção, pelo contrário, tende a abrir caminho para novos projectos e sucessos sucessivos. Sugere ainda que trabalho construtivo importante pode ser um antídoto contra o hábito do ódio.

No topo desta escala está a satisfação maciça de um grande empreendimento construtivo, desde obras materiais e organizações, até a criação política de ordem, e, de forma exemplar, arte e ciência. A obra dá autoestima sólida, influência sobre o pensamento dos outros, e uma fonte de sentido. Contudo, Russell nota uma exceção: grandes artistas podem ser profundamente infelizes, por temperamento, embora o trabalho os torne menos infelizes. Os cientistas, diz ele, tendem mais frequentemente a ser felizes e a retirar a felicidade primariamente do trabalho.

Russell inclui depois uma crítica social: muitos intelectuais, sobretudo os de talento literário, acabam a vender a sua habilidade a corporações e a produzir o que consideram “nonsense” nocivo. Essa dissociação destrói o autorrespeito e conduz ao cinismo, que acaba por envenenar a capacidade de desfrutar de qualquer coisa. Sem autorrespeito, a felicidade genuína torna-se quase impossível. Daí o conselho: quando for viável, é melhor escolher trabalho menos pago, mas alinhado com impulsos construtivos, do que trabalho bem pago que envergonha.

Por fim, alarga a ideia de construção: não é privilégio exclusivo de génios. Qualquer pessoa que seja “mestre” do que faz, ou que veja utilidade no seu trabalho e nele aplique habilidade, pode ter esta satisfação. E inclui explicitamente a educação de bons filhos como uma obra construtiva difícil e profundamente gratificante.

O capítulo fecha com uma ideia de carácter: há pessoas que vivem a vida como um todo, com direcção e unidade, e outras que a vivem como episódios soltos. As primeiras têm maior probabilidade de felicidade, porque constroem, passo a passo, condições de contentamento e autorrespeito. A capacidade de ver a vida como um conjunto, com propósito consistente, é parte da sabedoria e da moralidade, e deveria ser cultivada na educação. O propósito consistente não basta para a felicidade, mas é quase indispensável, e encarna sobretudo no trabalho.

 

15 - Os interesses impessoais

Russell distingue os interesses centrais, aqueles em torno dos quais a vida se constrói, de interesses menores e “impessoais”, que ocupam o lazer e aliviam a tensão das preocupações principais. Para o homem comum, a vida séria gira em torno de família, trabalho e dinheiro, por vezes até os afectos paralelos são vividos mais pelo impacto que podem ter no lar do que por si mesmos. O “impessoal” aqui não é frio, é aquilo que está fora do circuito da responsabilidade directa.

A tese de base é simples: uma fonte frequente de fadiga, ansiedade e tensão nervosa é a incapacidade de se interessar por algo que não tenha utilidade prática imediata. Quando só há um pequeno conjunto de assuntos “importantes”, todos carregados de preocupação, a mente consciente nunca descansa. Falta o pousio mental em que o pensamento mais lento, subterrâneo, consegue amadurecer. O resultado é excitabilidade, irritação, falta de sagacidade e perda de senso de proporção. E forma-se um círculo vicioso: quanto mais cansado, menos interesses exteriores, quanto menos interesses, menos descanso, e assim até ao colapso.

Russell explica porquê: o que descansa nos interesses externos é que não exigem acção. Decidir, escolher, exercer vontade, sobretudo com pressa, é muito fatigante. Daí o valor de “dormir sobre” decisões importantes, mas também a ideia de que o trabalho do subconsciente não acontece só no sono, pode acontecer enquanto a atenção consciente está ocupada noutro tema. Quem consegue esquecer o trabalho ao fim do dia costuma trabalhar melhor do que quem rumina continuamente. Ter interesses fora do trabalho facilita essa “mudança de carril”, desde que esses interesses não usem as mesmas faculdades já gastas. Devem evitar vontade e decisão rápida, evitar risco financeiro, evitar excitação emocional que gere nova fadiga e mantenha o subconsciente preso ao mesmo nó.

Daqui passa a exemplos de lazer saudável: ver jogos, teatro, golfe, leitura não ligada à profissão. Nenhuma preocupação, por mais séria, deveria ocupar todas as horas acordadas.

Surge depois uma comparação entre homens e mulheres, vista pelos olhos da época de Russell: ele diz que, em geral, os homens esquecem o trabalho com mais facilidade e as mulheres tendem a manter o pensamento preso ao que é prático, mesmo quando trabalham fora de casa. Interpreta isso como uma espécie de “conscienciosidade” que, a longo prazo, não melhora a qualidade do trabalho e pode estreitar o horizonte, abrindo caminho ao fanatismo. É um ponto descritivo e polémico no texto, mas serve para reforçar a ideia central: sem áreas mentais livres de utilidade e obrigação, a vida estreita-se e endurece.

Depois, Russell alarga o valor dos interesses impessoais para além do descanso. Eles ajudam a preservar o senso de proporção. É fácil ficar absorvido no próprio projecto, no próprio meio, no próprio tempo de vida, esquecendo quão pequeno isso é no conjunto da actividade humana e do mundo. Para Russell, esse alargamento não é mero luxo intelectual, é um bem em si. Ignorar oportunidades de conhecer o mundo é como ir ao teatro e não ouvir a peça. A realidade é vasta, estranha, trágica, cómica, heroica e bizarra, e interessar-se por ela é um dos privilégios da vida.

Esse senso de proporção é também um antídoto contra o temperamento fanático. O fanatismo nasce de fixar um ou dois bens desejáveis e esquecer todo o resto, aceitando danos colaterais como irrelevantes. Russell dá um exemplo político: numa disputa, pode parecer eficiente recorrer a métodos que aumentam ódio e violência, como insultar uma nação estrangeira. Se a visão for curta e a “eficiência” for o único critério, tais meios tornam-se tentadores. Se, pelo contrário, a mente estiver habituada a pensar em longos horizontes, no lento emergir da civilização e na escala do tempo, a vitória momentânea deixa de justificar uma regressão moral. E mesmo a derrota fica mais suportável, porque é vista como momentânea.

Daqui ele passa para uma ambição educativa: substituir a velha religião ortodoxa, que já não mobiliza os jovens, por uma espécie de “religião dos factos”, uma consciência viva do passado humano, da vastidão do cosmos, da pequenez da vida individual e, simultaneamente, da grandeza possível da mente humana, já que nela se concentra aquilo que conhecemos como valioso no universo. Evoca Spinoza e a ideia de libertação do medo. A mente “com janelas abertas”, batida pelos ventos do universo, ganha uma alegria profunda, menos sujeita às pequenas misérias e aos receios do destino.

Voltando ao plano prático, Russell sublinha outro benefício decisivo: os interesses impessoais são um recurso em tempos de crise. Quase todos enfrentam conflitos conjugais, doenças de filhos, stress financeiro, risco de fracasso profissional. Nesses momentos, quando não há nada a fazer de imediato, é sábio desviar a mente para canais distantes da ansiedade, seja xadrez, policiais, astronomia popular, arqueologia. Isso não é fuga degradante, é manutenção de capacidade. O erro é deixar a preocupação ocupar tudo, tornando a pessoa menos apta a agir bem quando chega a hora.

O mesmo raciocínio aplica-se a dores irreparáveis, como a morte de alguém amado. O luto é inevitável, mas Russell rejeita a “sentimentalidade” de tentar extrair o máximo de miséria. A resposta saudável não é destruir o pensamento com álcool ou drogas, isso ele considera degradante, é redireccioná-lo para outras vias. Para isso, é preciso ter cultivado antes uma largura de interesses, de modo a haver “lugares mentais” não contaminados pela perda.

O capítulo fecha com uma ideia de vitalidade: ser derrotado por uma perda não é prova admirável de sensibilidade, é sinal de falha de energia vital. Como tudo o que amamos está à mercê da morte, não convém viver com uma intensidade tão estreita que um acidente destrua todo o sentido. Quem procura a felicidade com prudência deve ter interesses subsidiários, para além dos centrais, que mantenham a vida respirável e flexível.

 

16 - Esforço e resignação

Russell começa por recuperar a ideia do “justo meio”, que lhe parecia pouco heroica na juventude, mas que considera verdadeira em muitas matérias. Uma delas é a relação entre esforço e resignação: há pregadores do esforço, há pregadores da resignação, e ambos tocam uma parte da verdade, mas falham quando a transformam em absoluto.

Defende primeiro o esforço. Para Russell, a felicidade raramente “cai no colo” como fruto maduro. Num mundo cheio de males evitáveis e inevitáveis, doença, pobreza, conflitos, e enredos psicológicos, ser feliz é, para a maioria, conquista e não dádiva. Existem excepções, pessoas com temperamento fácil, boa saúde, fortuna herdada e gostos simples, mas são casos raros. Para a maioria, a felicidade exige esforço externo e interno, embora aqui ele foque o externo: trabalhar para viver, ganhar autonomia, criar condições materiais e sociais mínimas, e perseguir objectivos que dêem sentido e sensação de sucesso.

Ele passa por domínios onde o esforço é incontornável. O trabalho é óbvio para quem precisa de rendimento. A ambição, muito comum no Ocidente, acrescenta um requisito: não basta sobreviver, é preciso sentir-se bem-sucedido, e num mundo competitivo a medida do sucesso é muitas vezes o dinheiro, o que já exige alguma resignação, porque o êxito conspícuo é inevitavelmente para poucos. Em matéria de casamento e família, Russell descreve como a necessidade de esforço varia com circunstâncias demográficas, e sublinha o esforço exigido pela criação de filhos, sobretudo quando se leva a sério higiene, medicina, alimentação e cuidados concretos, contrapondo isso a espiritualismos que desprezam o “material” e pagam o preço em mortalidade infantil.

Neste ponto, generaliza: a maioria das pessoas tem, de forma natural, algum desejo de poder, entendido como capacidade de agir no mundo, influenciar acções, pensamentos, emoções, ambiente, aliviar sofrimento. Não é, para ele, um vício necessariamente, é parte do equipamento de quem se importa com os outros. E esse desejo, quando não é deformado, implica esforço. Russell critica o exotismo de ocidentais que flertam com uma suposta “sabedoria da resignação oriental” precisamente quando, diz ele, o Oriente a abandona.

Depois vira a moeda: a resignação também é essencial na conquista da felicidade. O homem sábio não se senta perante males evitáveis, mas também não desperdiça tempo e emoção em males inevitáveis. E mesmo quando algo é evitável em teoria, pode não valer a pena evitá-lo se o custo em energia e tempo prejudicar objectivos mais importantes. Muitas pessoas entram em agitação por qualquer pequeno contratempo e aí gastam energia que poderia ser usada para fins reais. Até em objectivos importantes, não convém uma ligação emocional tão intensa que a possibilidade de fracasso envenene continuamente a paz de espírito. A atitude correcta, segundo Russell, é fazer o melhor possível e deixar o resultado à sorte.

Distingue então duas resignações. Uma nasce do desespero, é má: é o render-se de quem desistiu de qualquer realização séria, por vezes mascarando a derrota com frases religiosas ou com a tese de que “contemplar” é o fim do homem, ficando inútil e infeliz. A outra nasce de esperança inconquistável, é boa: uma esperança ampla e impessoal. Como as esperanças puramente pessoais podem ser derrotadas por doença, morte, inimigos ou erro, a saída é ligar os projectos individuais a um horizonte maior, ciência, reforma, progresso humano. Assim, a falha pessoal não se transforma em derrota absoluta. O cientista que quer o avanço da ciência e não apenas a sua glória, e o reformador que se interessa pelo futuro da humanidade mesmo que não veja a vitória em vida, sofrem, mas não colapsam.

A seguir, Russell aplica esta lógica ao quotidiano. Muitas frustrações são subsidiárias e não deveriam sequestrar a vida inteira: a infelicidade conjugal, quando existe um trabalho realmente absorvente, pode ser tratada como um dia de chuva, incómodo, mas não como matéria para dramatização contínua. Ele descreve o perfil de quem explode com atrasos, refeições mal feitas, chaminés a fumar ou roupas que não aparecem, e afirma que essa fúria é puro desperdício de energia. O sábio repara e corrige quando pode, mas fá-lo sem emoção corrosiva. A preocupação constante, a irritação e o frete não servem qualquer propósito e, para certas pessoas, só uma resignação mais profunda, ancorada em fins grandes e impessoais, consegue curar um temperamento cronicamente irritadiço.

Daqui surge um conjunto de técnicas mentais, quase cómicas, para relativizar contratempos: analogias estranhas, paralelos históricos, recordar a insignificância cósmica de um atacador que parte, ou transformar o aborrecimento repetido de um conhecido numa contagem de “placar”. Ele observa que todos mantemos uma autoimagem e irritamo-nos quando algo a estraga. O “remédio” é ter uma galeria de autoimagens, escolher a mais adequada ao incidente, e não viver sempre como herói trágico. Idealmente, seria melhor esquecer o papel e esquecer-se de si, mas se a teatralidade é inevitável, que seja variada e com tacto.

No final, Russell combate um medo comum: o de que humor e resignação destruam a energia do trabalho e a determinação para vencer. Ele acha esse medo errado. Trabalho valioso pode ser feito sem autoengano sobre a sua importância ou facilidade. Quem só trabalha sustentado por mitos e inflação do ego, diz ele, arrisca-se a fazer trabalho nocivo. Melhor parar do que fazer dano, até porque metade do trabalho útil é combater trabalho prejudicial. Aprender a encarar factos, inclusive factos sobre nós mesmos, não é tempo perdido. Há uma resignação envolvida em aceitar a verdade pessoal, no início dói, mas depois protege contra desilusões. E conclui com uma ideia forte: nada é tão fatigante, nem tão exasperante a longo prazo, como o esforço diário de acreditar em coisas que se tornam diariamente mais incríveis. Libertar-se desse esforço é condição indispensável para uma felicidade estável e duradoura.

 

17 - O homem feliz

Russell fecha o livro com uma tese simples: a felicidade depende em parte das circunstâncias externas e em parte de nós, e aqui interessou-lhe sobretudo o que depende de nós. Rejeita a ideia, comum em vários intelectuais, de que a felicidade exige um credo religioso, ou que a infelicidade nasce de causas sofisticadas e altamente intelectualizadas. Para ele, essas crenças são mais sintomas do que causas: o infeliz tende a adoptar um credo infeliz, o feliz tende a adoptar um credo feliz, e ambos confundem causa com consequência.

O que é indispensável para a felicidade da maioria é elementar: alimento e abrigo, saúde, amor, trabalho bem-sucedido e o respeito do “seu grupo”. Para alguns, também a parentalidade. Quando isto falta, só o homem excepcional consegue ser feliz; quando existe, ou é alcançável com esforço bem orientado, a persistência da infelicidade costuma sinalizar desajuste psicológico, por vezes grave o bastante para exigir psiquiatria, mas frequentemente curável pelo próprio, se agir do modo certo.

O ponto decisivo é a direcção das paixões e interesses. Quando estão voltados para fora, a felicidade torna-se possível; quando se voltam para dentro, formam uma prisão. Russell enumera as paixões autocentradas que mais encarceram o indivíduo: medo, inveja, sentido de pecado, autopiedade e autoadmiração. Em todas, não há interesse genuíno no mundo, há preocupação em não ser ferido por ele, ou em alimentarmos o ego. O medo, em particular, leva a esconder factos com mitos reconfortantes, mas esses mitos rasgam-se, e quem se habituou ao seu “calor” sofre mais com a realidade, além de viver sempre ansioso de que algum acontecimento force o reconhecimento do que evitava ver.

Como sair do círculo vicioso da auto absorção? Russell diz que não se sai a pensar obsessivamente nas causas da infelicidade, porque isso reforça a auto centralidade. A saída tem de vir por interesses genuínos, não por interesses simulados como remédio. Ainda assim, se o diagnóstico for correcto, há trabalho possível.

Se o problema for o sentido de pecado, a pessoa pode convencer a mente consciente de que não há motivo para se sentir culpada e, com técnicas discutidas antes no livro, “plantar” essa convicção no inconsciente, enquanto se ocupa com actividades neutras. Dissipado o sentimento de culpa, interesses objectivos tendem a nascer espontaneamente. Se o problema for autopiedade, o método é semelhante, começando por reconhecer que as próprias circunstâncias não são tão excepcionalmente trágicas quanto a emoção sugere. Se o problema for medo, Russell propõe treino de coragem, não apenas física, mas moral e intelectual. Um exemplo que dá é disciplinar-se a aceitar diariamente pelo menos uma verdade dolorosa, e treinar a ideia de que a vida continuaria a valer a pena mesmo sem a nossa presença, o que reduz a dependência do ego como centro do universo. Com o tempo, esse treino permite admitir factos sem estremecer, libertando-nos do domínio do medo em muitas áreas.

Quanto aos interesses objectivos que devem substituir a fixação no eu, Russell recusa prescrições artificiais. Não vale dizer “seria feliz se me interessasse por selos” e forçar um hobby. Só o que interessa de verdade funciona, mas ele confia que os interesses autênticos surgem quando a pessoa deixa de estar submersa em si mesma.

A conclusão moral é provocadora: a vida feliz coincide, em grande medida, com a vida boa. Russell critica os moralistas profissionais por insistirem demasiado na abnegação consciente. Para ele, a auto negação consciente mantém o indivíduo auto absorvido e consciente do que sacrificou, e por isso falha tanto no objectivo imediato como no propósito final. O que resulta é uma orientação natural para fora, que leva espontaneamente aos mesmos actos que a moralidade rígida só conseguiria por esforço de vontade. Russell assume-se hedonista, no sentido em que trata a felicidade como bem, mas nota que, na prática, as recomendações do hedonista e do moralista sensato convergem; a diferença está no foco do moralista, que privilegia o acto em vez do estado de espírito. O mesmo acto tem efeitos diferentes conforme o motivo interno: salvar uma criança por impulso de ajuda não corrompe o carácter; fazê-lo para “ser virtuoso” pode, paradoxalmente, piorar-nos, por reforçar a autoencenação moral.

Também relativiza a fórmula “o amor deve ser altruísta”. Deve não ser egoísta em excesso, mas tem de ligar a nossa felicidade ao sucesso do amor, caso contrário torna-se uma caricatura de auto mortificação. Quando existe interesse genuíno por pessoas e coisas fora de nós, a oposição entre “eu” e “mundo” perde sentido: o indivíduo sente-se parte do fluxo da vida, não uma esfera dura isolada. Para Russell, toda a infelicidade envolve alguma desintegração: ou divisão interna, falta de coordenação entre consciente e inconsciente, ou falta de integração com o mundo, por ausência de afectos e interesses objectivos.

O homem feliz é, então, o que não sofre dessas rupturas: não está dividido por dentro nem em guerra com o mundo. Sente-se cidadão do universo, aprecia o espectáculo da vida e as suas alegrias, e não é atormentado pela morte porque não se vive como entidade separada, vive-se como parte de uma continuidade que prossegue. É nessa união instintiva com o “rio” da vida que Russell coloca a alegria mais profunda.

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