“A minha resposta. Sobre a ‘G.m.b.H. antirrelativista’” Por Albert Einstein - publicado no Berliner Tageblatt, sexta feira, 27 de Agosto de 1920 (edição da manhã) - tradução livre
Sob o nome ambicioso de “Grupo de trabalho de cientistas naturais alemães”, juntou-se uma companhia variada cujo objectivo provisório é rebaixar, aos olhos dos não físicos, a teoria da relatividade e a mim, enquanto seu autor. Recentemente, os senhores Weyland e Gehrcke deram, na Filarmónica, uma primeira conferência nesse sentido, na qual eu próprio fui tomado como alvo.
Tenho plena consciência de que estes dois oradores não merecem uma resposta da minha pena, pois tenho bons motivos para crer que, por detrás desta empresa, há outros motivos para além da busca da verdade. Se eu fosse um nacionalista alemão, com ou sem suástica, em vez de um judeu de convicção liberal e internacional, então… Respondo apenas porque, de um lado benevolente, me pediram repetidamente que tornasse conhecida a minha posição.
Antes de mais, observo que hoje dificilmente existe um investigador que tenha produzido algo de relevante na física teórica e que não reconheça que toda a teoria da relatividade está construída de forma lógica e está em consonância com os factos da experiência até agora apurados com segurança. Os mais importantes físicos teóricos, cito H. A. Lorentz, M. Planck, Sommerfeld, Laue, Born, Larmor, Eddington, Debye, Langevin, Levi-Civita, assentam no fundamento desta teoria e deram-lhe contribuições de grande valor.
Entre os físicos de relevância internacional eu teria apenas Lenard a nomear como opositor. Eu admiro Lenard como mestre da física experimental, mas, na física teórica, ele nada produziu até hoje, e as suas objecções contra a teoria geral da relatividade são de tal superficialidade que, até agora, não considerei necessário responder-lhes com detalhe. Tenciono fazê-lo.
Lançam-me em rosto que eu faço, em favor da teoria da relatividade, uma publicidade sem gosto. Posso dizer, com toda a segurança, que, ao longo da vida, fui amigo da palavra ponderada, sóbria, e da exposição concisa. Perante frases e palavras empoladas sinto arrepios, quer se trate do que for, quer se trate de relatividade. Muitas vezes trocei de excessos que agora, por fim, são postos na minha conta. De resto, deixo de bom grado esse prazer aos senhores da G.m.b.H.
Agora, quanto aos oradores. O senhor Weyland, que parece não ser homem da especialidade, médico, engenheiro, político, não consegui apurar, não apresentou absolutamente nada de material. Excedeu-se em grosserias pesadas e em acusações rasteiras. O segundo orador, o senhor Gehrcke, apresentou em parte inverdades directas, em parte procurou, por selecção unilateral do material e por deturpação, criar no público leigo uma impressão falsa. Alguns exemplos podem demonstrá-lo.
O senhor Gehrcke afirma que a teoria da relatividade conduz ao solipsismo, uma afirmação que qualquer conhecedor saudará como uma piada. Apoia-se, para isso, no conhecido exemplo dos dois relógios, ou gémeos, dos quais um, relativamente a um sistema inercial, faz uma viagem de circum-navegação e o outro não. Ele afirma, apesar de isto já lhe ter sido refutado muitas vezes, oralmente e por escrito, pelos melhores conhecedores da teoria, que a teoria conduziria, neste caso, ao resultado verdadeiramente absurdo de que, de dois relógios que se encontram lado a lado em repouso, cada um ficaria atrasado em relação ao outro. Só posso entender isto como uma tentativa de enganar deliberadamente o público leigo.
O senhor Gehrcke recorre ainda às objecções do senhor Lenard, que se apoiam em exemplos da mecânica do quotidiano. Estas já caem por terra à luz da prova geral de que as afirmações da teoria geral da relatividade, em primeira aproximação, coincidem com as da mecânica clássica.
Aquilo que o senhor Gehrcke disse acerca da confirmação experimental da teoria é, para mim, a prova mais contundente de que não lhe interessava esclarecer o verdadeiro estado de coisas.
O senhor Gehrcke quer fazer crer que o movimento do periélio de Mercúrio também poderia ser explicado sem a teoria da relatividade. Há duas possibilidades. Ou se inventam massas interplanetárias especiais, tão grandes e de tal modo distribuídas que produzam um movimento do periélio do valor observado, o que é, naturalmente, altamente insatisfatório em comparação com a explicação fornecida pela teoria da relatividade, a qual dá o movimento do periélio de Mercúrio sem quaisquer hipóteses especiais. Ou então recorre-se a um trabalho de Gerber, que já antes de mim teria apresentado a fórmula correcta para o movimento do periélio de Mercúrio. Mas os especialistas não só concordam que a dedução de Gerber é de ponta a ponta incorrecta, como também que a fórmula, como consequência das hipóteses assumidas por Gerber, nada permite concluir ou aproveitar. O trabalho de Gerber é, por isso, totalmente sem valor, uma tentativa teórica falhada e irreparável.
Constato que a teoria geral da relatividade foi a primeira explicação real do movimento do periélio de Mercúrio. Eu não mencionei originalmente o trabalho de Gerber apenas porque não o conhecia quando escrevi o meu trabalho sobre o movimento do periélio de Mercúrio, mas, mesmo que o tivesse conhecido, não teria tido motivo para o mencionar. O ataque pessoal que os senhores Gehrcke e Lenard, com base nisso, dirigiram contra mim é considerado, pelos verdadeiros especialistas, de modo geral, como injusto.
O senhor Gehrcke tentou, no seu discurso, lançar uma luz enviesada sobre a fiabilidade das medições inglesas relativas à deflexão dos raios de luz junto ao Sol, ao mencionar, de entre três grupos independentes de observação, apenas um, o qual, devido a uma distorção do espelho do heliostato, tinha necessariamente de produzir resultados errados. Omitiu que os próprios astrónomos ingleses, no seu relatório oficial, interpretaram os seus resultados como uma confirmação brilhante da teoria geral da relatividade.
O senhor Gehrcke, a propósito da questão do desvio para o vermelho gravitacional, omitiu que as medições espectrais ainda se contradizem entre si e que uma decisão definitiva sobre o assunto ainda está pendente. Indicou apenas testemunhos contra a existência do desvio de linhas previsto pela teoria da relatividade, mas omitiu que, pelas investigações mais recentes de Grebe e Bachem e de Perot, esses resultados anteriores perderam força probatória.
Por fim, observo que, por sugestão minha, na próxima assembleia dos cientistas naturais será organizada uma discussão sobre a teoria da relatividade. Aí poderá qualquer pessoa que se atreva perante um fórum científico apresentar as suas objecções, e estas serão submetidas ao exame segundo as regras normais.
No estrangeiro, sobretudo para os meus colegas holandeses e ingleses H. A. Lorentz e Eddington, ambos ocupados em profundidade com a teoria da relatividade e tendo sobre ela repetidamente proferido conferências, será uma impressão singular ver que a teoria, e o seu autor, são assim vilipendiados na própria Alemanha.
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