Ciência e Civilização - Discurso proferido por Albert Einstein no Royal Albert Hall, Londres, 3 de Outubro de 1933 (tradução livre)
Sinto me profundamente grato por me terem dado a oportunidade de aqui vos
exprimir o meu sincero reconhecimento, como homem, como bom europeu e como
judeu. Através do vosso trabalho de apoio, bem organizado, prestaram um grande
serviço não apenas a académicos inocentes que foram perseguidos, mas também à
humanidade e à ciência. Demonstraram que vós e o povo britânico permaneceram
fiéis às tradições de tolerância e de justiça que, ao longo de séculos,
sustentaram com orgulho.
É em tempos de aflição económica como aqueles
que hoje se vivem por toda a parte que se revela com particular clareza a força
das energias morais que habitam um povo. Esperemos que um historiador, ao
proferir o seu juízo num futuro em que a Europa esteja politicamente e
economicamente unida, possa dizer que, nos nossos dias, a liberdade e a honra
deste continente foram salvas pelas nações ocidentais, que resistiram
firmemente, em tempos difíceis, às tentações do ódio e da opressão, e que a
Europa Ocidental defendeu com êxito a liberdade do indivíduo, liberdade essa
que nos trouxe o progresso do conhecimento e da invenção, e sem a qual a vida,
para um homem que se respeita a si próprio, não vale a pena ser vivida.
Não pode ser hoje minha tarefa julgar a conduta de uma nação que, durante
muitos anos, me considerou como seu; talvez seja até inútil julgar em tempos em
que a acção é o que conta. As questões que hoje nos dizem respeito são outras:
como podemos salvar a humanidade e as suas conquistas espirituais, de que somos
herdeiros? Como podemos salvar a Europa de um novo desastre?
Não pode haver dúvida de que a crise mundial e
o sofrimento e as privações dos povos que dela resultam são, em certa medida,
responsáveis pelas perigosas convulsões de que somos testemunhas. Em períodos
assim, o descontentamento gera ódio, o ódio conduz a actos de violência e de
revolução, e frequentemente até à guerra. Deste modo, a miséria e o mal
produzem nova miséria e novo mal.
Mais uma vez, os principais estadistas
encontram-se carregados de responsabilidades tremendas, tal como há vinte anos.
Oxalá consigam, através de acordos atempados, estabelecer na Europa uma
situação de unidade e de clareza nas obrigações internacionais tal que, para
qualquer Estado, uma aventura guerreira tenha de se apresentar como
completamente sem esperança. Mas o trabalho dos estadistas só pode ter êxito se
for sustentado pela vontade séria e determinada dos povos.
Não estamos confrontados apenas com o problema técnico de garantir e manter
a paz, mas também com a importante tarefa da educação e do esclarecimento. Se
queremos resistir às forças que ameaçam suprimir a liberdade intelectual e
individual, devemos manter bem presente aquilo que está em jogo e aquilo que
devemos a essa liberdade que os nossos antepassados conquistaram para nós após
duras lutas.
Sem essa liberdade não teria existido
Shakespeare, nem Goethe, nem Newton, nem Faraday, nem Pasteur, nem Lister. Não
existiriam casas confortáveis para a maioria das pessoas, nem caminhos de
ferro, nem rádio, nem protecção contra epidemias, nem livros baratos, nem
cultura, nem fruição da arte para todos. Não existiriam máquinas para libertar
as pessoas do trabalho árduo necessário à produção dos bens essenciais à vida.
A maioria dos homens levaria uma vida monótona de servidão, tal como sob os
antigos despotismos da Ásia. Só homens livres criam as invenções e as obras
intelectuais que, para nós, homens modernos, tornam a vida digna de ser vivida.
[Passagem omitida no original publicado,
relativa ao cientista que trabalha silenciosamente como guardião de um farol.]
Devemos inquietar nos pelo facto de vivermos numa época de perigo e de
carência? Penso que não. O homem, como qualquer outro animal, é por natureza
indolente. Se nada o estimular, dificilmente pensará e comportar se á por
hábito, como um autómato. Já não sou jovem e posso, por isso, dizer que, em
criança e em jovem, vivi essa fase, quando um jovem pensa apenas nas
trivialidades da existência pessoal, fala como os seus semelhantes e se
comporta como eles. Só com dificuldade se consegue perceber o que realmente se
esconde por detrás de uma máscara tão convencional, pois, por força do hábito e
da linguagem, a verdadeira personalidade fica, por assim dizer, envolta em
algodão.
Quão diferente é o tempo presente. Nos
relâmpagos destes tempos tempestuosos vemos os seres humanos e as coisas na sua
nudez. Cada acção e cada pessoa revelam com clareza os seus objectivos, as suas
forças e as suas fraquezas, bem como as suas paixões. A rotina deixa de servir
perante a rapidez da mudança das circunstâncias; as convenções caem como cascas
secas.
Na sua aflição, os homens começam a reflectir
sobre o fracasso das práticas económicas e sobre a necessidade de combinações
políticas de natureza supranacional. Só através de perigos e convulsões podem
as nações ser conduzidas a novos desenvolvimentos. Que as convulsões actuais
conduzam a um mundo melhor.
Para além desta avaliação do nosso tempo, temos ainda um dever adicional: o
cuidado com aquilo que é eterno e mais elevado entre as nossas posses, aquilo
que confere sentido à vida e que desejamos transmitir aos nossos filhos mais
puro e mais rico do que o recebemos dos nossos antepassados. Para estes fins
contribuístes, de forma afectuosa, com os vossos serviços abençoados.
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