Também somos feitos de quem veio antes
Uma leitura de “Quem Me Vê”, de Luís Trigacheiro
Há canções que contam uma história. Outras, ainda
que não o pretendam, formulam uma teoria sobre aquilo que significa ser humano.
“Quem Me Vê”, interpretada por Luís Trigacheiro,
pertence a esta segunda categoria. Com letra de Tiago Nogueira e música de
Tiago Nogueira e Ricardo Lis Almeida, a canção apresenta uma ideia
simultaneamente simples e profunda: quem observa uma pessoa nunca vê apenas
aquela pessoa. Vê também, ainda que não o saiba, os seus pais, os seus avós, as
terras de onde vieram, as experiências que atravessaram, as culturas que
transportaram e as histórias que lhes permitiram sobreviver.
Ou como diz uma frase atribuída a Airton Ortiz: "Somos
o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que
amamos."
O sujeito da canção não se descreve como uma
unidade encerrada sobre si própria. Apresenta-se como uma composição. Um ponto
de encontro entre diferentes pessoas, diferentes lugares e diferentes tempos.
Essa concepção encontra uma ressonância
particularmente forte no conhecimento contemporâneo sobre o cérebro, a
cognição, a cultura e a identidade.
O mito do
indivíduo inteiramente autónomo
Uma parte importante da cultura ocidental
construiu a imagem do indivíduo como uma entidade autónoma, racional e
relativamente independente das circunstâncias que a precederam. De acordo com
essa imagem, cada pessoa possuiria uma identidade essencial, localizada algures
no interior de si mesma, a partir da qual pensaria, escolheria e agiria.
A investigação contemporânea oferece uma imagem
bastante diferente.
Não chegamos ao mundo como consciências já
constituídas, às quais posteriormente se acrescentam experiências. O próprio
organismo desenvolve-se em relação permanente com outros organismos e com um
ambiente físico, social e cultural. O cérebro humano não amadurece
isoladamente. As suas redes são progressivamente organizadas através da
experiência, da aprendizagem, da linguagem, dos vínculos afectivos e das
práticas sociais.
Isto não significa que sejamos simples produtos
passivos do meio. Significa que a distinção entre aquilo que somos e o mundo no
qual nos formámos é muito menos nítida do que habitualmente imaginamos.
A identidade não precede inteiramente as
relações. Em grande medida, emerge delas.
Herdar não é
apenas receber genes
A referência aos pais e aos avós pode ser
interpretada, num primeiro nível, como uma referência à herança biológica.
Recebemos dos nossos progenitores variantes
genéticas que participam na formação do organismo, influenciando
características físicas, disposições fisiológicas e determinadas probabilidades
de desenvolvimento. Mas os genes não constituem instruções rígidas para a
produção de uma pessoa previamente definida. A sua expressão depende de
processos regulatórios, do desenvolvimento e da interacção com o ambiente.
Por isso, não herdamos destinos. Herdamos
possibilidades, susceptibilidades e condições de partida.
Também é necessário ter prudência quando se
invoca a epigenética para sugerir que experiências complexas dos antepassados,
como guerras, migrações ou traumas, seriam directamente inscritas no organismo
e transmitidas durante numerosas gerações. Existem resultados importantes em
modelos animais e há investigação relevante sobre efeitos intergeracionais em
seres humanos, mas a demonstração de uma verdadeira transmissão epigenética
transgeracional humana continua rodeada de dificuldades metodológicas e conceptuais.
A beleza da canção não depende, contudo, dessa
hipótese forte. A transmissão entre gerações ocorre por vias muito mais
visíveis e solidamente estabelecidas.
Transmitimos formas de falar, de reagir, de
cuidar, de temer, de celebrar e de interpretar o mundo. Transmitimos
expectativas, gestos, receitas, silêncios, histórias familiares, condições
económicas, oportunidades e limitações. Transmitimos maneiras de habitar o
corpo e de nos relacionarmos com os outros.
Neste sentido, uma guerra vivida por um bisavô
pode participar na formação de um bisneto sem ser necessário imaginar uma
memória da guerra inscrita nos genes. Pode ter alterado o local onde a família
passou a viver, os recursos de que dispôs, as pessoas que conheceu, as
histórias que contou, os receios que cultivou e as estratégias de sobrevivência
que ensinou aos filhos.
A história entra no organismo através da vida.
O cérebro como
órgão biográfico
O cérebro humano não é apenas um órgão biológico.
É também, em certo sentido, um órgão biográfico.
Ao longo do desenvolvimento, o sistema nervoso
modifica-se em função das experiências que atravessa. Aprendemos a reconhecer
aquilo que é seguro ou ameaçador, aquilo que merece atenção, as respostas que
são socialmente permitidas e as interpretações que fazem sentido dentro da
comunidade em que vivemos.
O cérebro não regista simplesmente o mundo como
uma câmara. Constrói modelos que lhe permitem antecipar acontecimentos,
orientar a atenção e preparar respostas. Aquilo que percebemos depende, em
parte, das regularidades que aprendemos e das expectativas que fomos formando.
Consequentemente, até a maneira como olhamos para
o mundo transporta vestígios de outras pessoas.
A criança aprende através das reacções dos
adultos. Aprende aquilo que deve recear observando o medo dos outros. Aprende
aquilo que merece orgulho através das histórias que a família valoriza. Aprende
a interpretar expressões, situações e acontecimentos dentro de uma arquitectura
de significados que não criou sozinha.
Quando reconhecemos num filho o olhar da mãe ou a
maneira de ser do pai, podemos estar a identificar uma semelhança física. Mas
podemos também estar a reconhecer padrões de atenção, gestos, ritmos emocionais
e formas de relação que foram reproduzidos, ajustados e incorporados ao longo
da convivência.
A transmissão não é mera cópia. Cada cérebro
reconstrói aquilo que recebe.
A memória não
preserva apenas o passado
A canção coloca os antepassados dentro da
identidade presente. Esta imagem aproxima-se de outra ideia fundamental da
psicologia cognitiva: a memória autobiográfica não funciona apenas como um
arquivo de acontecimentos passados.
Ela participa activamente na construção do
sujeito.
As memórias autobiográficas combinam
acontecimentos vividos, conhecimentos sobre a própria vida, emoções,
interpretações e referências ao eu. Não são reproduções exactas do passado. São
reconstruções realizadas a partir das necessidades, conhecimentos e perspectivas
do presente.
Além disso, muitas das histórias através das
quais compreendemos a nossa identidade não correspondem a experiências que
recordamos pessoalmente. Sabemos quem eram os nossos avós porque alguém nos
falou deles. Conhecemos determinados episódios familiares porque foram
repetidos em almoços, fotografias, vídeos, cartas ou relatos. Algumas dessas
histórias tornam-se tão centrais para a identidade familiar que passam a
integrar a nossa própria compreensão de quem somos.
Uma pessoa pode nunca ter conhecido o bisavô que
atravessou uma guerra e, ainda assim, crescer num mundo parcialmente organizado
pelas consequências dessa travessia.
A memória familiar amplia, assim, os limites da
memória individual.
Não nos recordamos apenas através do nosso
cérebro. Recordamo-nos também através das narrativas, dos objectos, dos lugares
e das pessoas que conservam partes do passado por nós.
O eu como
narrativa
A filosofia contemporânea tem discutido a
possibilidade de a identidade pessoal possuir uma estrutura narrativa.
Isto não significa que sejamos personagens
fictícias ou que possamos inventar livremente aquilo que somos. Significa que,
para atribuir continuidade à nossa existência, organizamos acontecimentos,
relações e escolhas dentro de histórias que lhes conferem sentido.
Paul Ricoeur distinguiu a identidade entendida
como permanência daquilo que é igual da identidade construída através da
continuidade narrativa de uma vida. O sujeito muda, mas reconhece-se como o
mesmo porque consegue relacionar diferentes momentos da sua existência numa
história inteligível.
A canção realiza precisamente esse movimento. O
narrador procura compreender quem é e, para isso, desloca o olhar para trás. A
resposta não é encontrada numa essência escondida dentro de si, mas numa
genealogia.
O eu aparece como uma narrativa na qual
participam muitas vozes.
Contudo, não somos apenas aquilo que herdámos.
Somos também a maneira como interpretamos, aceitamos, recusamos ou
transformamos essa herança. A identidade narrativa não é uma simples repetição
do passado. É uma actividade de reorganização.
Recebemos histórias, mas também contamos
novamente essas histórias com o nosso cunho pessoal.
Cultura,
mestiçagem e transmissão social
Um dos elementos mais ricos da canção encontra-se
na associação entre identidade e mistura.
A mestiçagem referida na letra pode ser
compreendida num sentido mais amplo do que a ancestralidade biológica. Toda a
identidade humana é culturalmente mestiça porque resulta do encontro entre
múltiplas influências, linguagens, práticas e pertenças.
As culturas não são recipientes fechados e
imutáveis. Transformam-se através da circulação de pessoas, símbolos,
conhecimentos, hábitos e tecnologias. A investigação sobre transmissão cultural
mostra que as características sociais são transmitidas entre gerações, mas
também seleccionadas, reinterpretadas e modificadas em função das instituições
e dos ambientes em que circulam.
Aquilo que chamamos tradição não é
necessariamente a preservação intacta de uma prática antiga. Muitas vezes é o
resultado de sucessivas reconstruções do passado realizadas no presente.
O próprio fado ilustra esse processo. É
reconhecido como expressão de uma identidade portuguesa, mas essa identidade
musical formou-se através de encontros históricos, deslocações, transformações
urbanas e cruzamentos culturais. Ser castiço não significa, por isso, ser puro.
A autenticidade pode nascer precisamente da
mistura.
A sociedade
dentro da pessoa
A sociologia permite levar ainda mais longe esta
leitura.
Cada indivíduo ocupa uma posição numa estrutura
social que existia antes do seu nascimento. Nasce num determinado momento
histórico, numa família com certos recursos, num território concreto, dentro de
instituições, hierarquias e expectativas que condicionam as oportunidades
disponíveis.
A sociedade não permanece apenas no exterior do
indivíduo. Torna-se parte das suas disposições.
Pierre Bourdieu utilizou o conceito de habitus
para descrever sistemas de disposições adquiridas através das condições sociais
de existência. As preferências, os modos de falar, os comportamentos corporais
e até aquilo que uma pessoa considera possível ou impossível podem reflectir a
história social incorporada.
Por isso, quando a canção sugere que as
deslocações e conflitos vividos por um antepassado ajudaram a moldar alguém que
ainda não tinha nascido, está a formular uma intuição sociologicamente
poderosa.
As escolhas dos antepassados alteraram as
condições nas quais as gerações seguintes puderam escolher.
Isto não elimina a agência individual. Obriga,
porém, a abandonar uma concepção ingénua de liberdade segundo a qual todos
começariam a vida no mesmo ponto, dispondo das mesmas possibilidades e
construindo-se exclusivamente através das suas decisões.
A pessoa é agente da sua vida, mas nunca é autora
das condições iniciais da sua existência, e bastas vezes ao longo da vida também
não é, de todo, verdadeiramente agente da sua vida, embora aquilo que faz,
importa.
A antropologia
do parentesco
Do ponto de vista antropológico, a canção também
recorda que o parentesco não é apenas uma relação genética.
As sociedades humanas criam diferentes formas de
definir filiação, pertença, ascendência, família e continuidade entre gerações.
O parentesco é simultaneamente biológico, social, simbólico, jurídico e
afectivo.
Ser filho ou neto não consiste somente em possuir
determinada percentagem de material genético em comum. Consiste em ocupar um
lugar numa rede de relações, expectativas, obrigações e memórias.
Os antepassados podem continuar socialmente
presentes depois da morte. Permanecem nos nomes, nos objectos, nas celebrações,
nas casas, nas fotografias e nas histórias familiares. Podem funcionar como
exemplos, advertências ou referências morais.
Nesse sentido, a identidade não é apenas
individual. É também e sobretudo, relacional.
Sabemos quem somos através das relações que nos
ligam a outras pessoas, incluindo pessoas que já não existem e pessoas que
nunca chegámos a conhecer.
Ninguém começa
inteiramente em si próprio
A força de “Quem Me Vê” reside no facto de
transformar esta complexa rede de dependências numa experiência imediatamente
reconhecível.
O rosto de uma pessoa pode recordar o de outra.
Um gesto pode atravessar gerações. Uma maneira de reagir pode ter sido
aprendida muito antes de sabermos que estávamos a aprender. Uma história antiga
pode orientar uma decisão presente.
Não somos réplicas dos nossos antepassados.
Também não somos seres que começaram inteiramente em si próprios.
Somos organismos biologicamente herdados,
cérebros moldados pela experiência, sujeitos formados através das relações,
participantes em culturas anteriores ao nosso nascimento e narradores que
procuram criar alguma coerência a partir de tudo aquilo que receberam.
Cada pessoa é, por isso, simultaneamente
continuidade e transformação.
Há no indivíduo algo dos pais e dos avós, mas há
também algo que nunca existiu antes. A combinação é nova. As relações são
novas. A interpretação é nova. Daí a diversidade que nos mantém vivos.
Talvez seja essa a ideia mais bela da canção: não
somos menos singulares por sermos feitos de muitas pessoas.
É precisamente porque tantas histórias se cruzam
em nós que cada ser humano é irrepetível. Qual cocktail do qual ninguém sabe verdadeiramente
a receita.
Comentários
Enviar um comentário